Foi num largo sorriso e com o grito que estava entalado na garganta de todos os brasileiros, que o ator Selton Mello reagiu ao nome da atriz Fernanda Torres como ganhadora do inédito troféu de melhor atriz pelo “Gonden Globes 2025”. Selton fez uma participação brilhante ao lado de Fernanda no filme “Ainda Estou Aqui” dirigido por Walter Salles e inspirado no livro de mesmo nome do escritor Marcelo Paiva, sobre um retrato da ditadura militar no Brasil. Retrato este que marcou a família Paiva eternamente.
Fernanda e Selton possuem carreiras lindas na arte e cultura brasileira, juntos guardam histórias da comédia ao drama protagonizados por suas atuações sempre brilhantes. Mais que colegas de profissão são amigos.
Costumamos medir nossos amigos por estarem ao nosso lado nos momentos de dor, de fraqueza, quando se não fossem eles, talvez não teríamos resistido, e sim, sucumbido. Não nego a importância dos amigos nesses momentos, eu mesma tenho uma lista de histórias que se não fossem os amigos ao meu lado, certamente não estaria aqui para escrever essas linhas. Tenho também vivências onde estendi a mão para que amigos tivessem apoio para sair do fundo do poço, mas convenhamos, quando estamos nessa situação, estamos em um degrau acima, naquele degrau que tem mais condição de ajudar. O ser humano em sua essência gosta de estar nesse lugar.
Por essa razão, meu questionamento hoje vem em outra direção. Quando uma pessoa está momentaneamente acima de você, você consegue ficar feliz por ela? Claramente será difícil encontrar uma resposta genuína, então mudarei a questão: quando você está momentaneamente acima por uma conquista, realização e está muito feliz, quem é que fica genuinamente feliz com a sua felicidade? Foi mais demorado responder agora, não é?
Em tempos jamais vividos de uma rede social que estimula a competição da felicidade, mostra recortes de momentos exultantes e nos coloca a disposição filtros de todas as espécies; ter alguém que deixa de lado, por um momento, seus desejos e necessidades para comemorar com você o seu momento de glória, é cada vez mais raro.
A maioria das pessoas gosta mais de falar do que de ouvir. Falar de si é mais interessante do que ouvir sobre o outro. Ouvir o outro quando se tem a necessidade de produtividade todas as horas do dia, talvez seja uma perda de tempo.
Muito cedo entendi que as pessoas não estavam dispostas realmente a me ouvir. Percebi que a pergunta “tudo bem?”, era somente uma mera formalidade, porque se a resposta se estende para além de um “sim”, o ouvinte se mostra impaciente por finalizar a conversa. Por essa razão me fechei, passei a adolescência e o começo da vida adulta sem falar das minhas questões. Para ninguém. Sofri calada e comemorei sozinha cada dor e conquista que eu acreditava só terem importância a mim, porque a verdade é que além de minha mãe, ninguém se importava. E mãe nessa circunstância pode ser considerada café com leite, não pode?
Eu pelo contrário, sempre gostei de pessoas, de ouvir suas histórias e aprender com elas; foi esse interesse que me fez chegar e me encantar com a área da psicologia e me especializei em conduzir pessoas através da fala e da escuta.
Até que uma pessoa quebrou todas essas minhas crenças. Ela perguntava sobre mim e eu pensava: mas por que ela quer saber? Me fazia perguntas e eu questionava: por que se interessa com a minha opinião? Passava horas me ouvindo falar sem parar até que num insghit descobri: ela se importava. Hoje dividimos opiniões, alegrias, tristezas e fofocas, quem nunca? E já convivemos tempo suficiente para que ela me desse a mão para eu sair do fundo do poço e me aplaudisse em uma conquista que foi só minha. Ela ali era coadjuvante igual o Selton Mello, mas gritou e me abraçou como ele abraçou Fernanda Torres e fez lacrimejar os olhos de todos os brasileiros.
Hoje tenho vários amigos e amigas e sei para que posso contar com cada um deles. Já deixei pelo caminho alguns que só ficavam ao meu lado quando eu estava em um nível mais baixo que eles. Agarrei e não solto mais os que se mostraram feliz com a minha felicidade, assim como nunca vou esquecer os que enfrentaram o trânsito de São Paulo numa sexta-feira no início da noite, chegando no horário para me aplaudir em um momento especial da minha vida. E sorriram genuinamente comigo.
Tenho pessoas especiais em minha vida. Não são tantas como as redes sociais pedem, mas são verdadeiras. Assim como fico feliz com a felicidade delas, elas ficam com a minha.
E você, sabe quem são os “Seltons Melos” da sua vida?
Karina Zeferino


