Andei durante anos por um caminho instável,
A passos lentos não forçava os pés para o chão não rachar,
Mal sabia o que queria, o que podia e o que esperar,
Deixava a vida, do jeito dela me levar.
Até que percebi, acreditava estar andando,
Mas não saia do lugar.
Quando dei por mim já estava adulta e na mesma situação,
Sentia falta do cheiro, dos conselhos e de tudo que não vivi,
Não lembrava de nada que me motivasse a seguir, resistir, persistir,
Deixei de insistir.
Não mais me segurei e para o buraco negro me entreguei.
Grande. Fundo. Escuro. Frio. Vazio.
O buraco negro num abraço me engoliu,
Do enlace gostei
E dentro dele alienei.
Não sentia, não vivia, não evoluía,
Até de mim me escondia,
E fingia,
Que a vida ali acontecia.
Me acostumei no buraco ficar, porque de dentro não conseguia enxergar,
Que o que me prendia, eram as faltas que eu não assumia,
Porque olhar doía,
E reconhecer exigia, que teria que me movimentar.
Apesar de seguro, não era nada confortável. Sofria!
Com o pouco de vida que restava, me reergui e do buraco saí,
Mas sem forças para acolher, o buraco quis preencher.
Falsos cuidados, mentirosas promessas, interesses genuínos,
Só não sabia que o buraco da falta, só do vazio se preenchia.
Após muito custo, consegui aceitar,
Que a falta ocupa um imenso lugar,
No buraco negro nada vai ficar,
A não ser o que a criança carecia vivenciar.
Hoje não mais me esquivo,
Tenho um buraco negro e com ele convivo,
A falta faz falta e essa dor só tem alívio,
Reconhecendo que o buraco, me constitui e é meu amigo.
Karina Zeferino


