Não vou me render

Me vejo hoje na situação de um meme da internet: tenho minha escrita e um sonho (risos). Meu sonho é levar o que escrevo para as pessoas e ser conhecida pelas palavras que tanto me salvam e me curam nesse mundo real.

Sempre gostei de escrever, elaboro a vida através das palavras, mas não acreditava que o que eu escrevia era interessante para outras pessoas, até que mostrei para figuras próximas. Elas gostavam, entretanto, para meu superego carrasco não bastava, ele teimava em me fazer acreditar que estavam tentando me animar. Continuei escrevendo e um dia passou pela minha timeline a propaganda de uma editora selecionando textos para uma antologia. Enviei dois textos com muita ansiedade e certa expectativa, é difícil não ter. Era a primeira vez que me arriscava, parecia muito distante e a resposta foi positiva. Os dois textos foram selecionados para o livro “Cartas para o meu amor”. Sensacional!!! Fiquei muito feliz e com isso fui deixando de me esconder e abrindo minha escrita para pessoas fora do convívio íntimo.

Assim, em dois anos se passaram 18 livros e 26 textos publicados, entre eles poesias e crônicas. Nunca me imaginei escrevendo poesias, foi uma surpresa até para mim, agora crônica, ah as crônicas! São minhas paixões.

Contudo, me vejo na contramão do mundo. Crônicas ficam no meio do caminho entre textos curtos, tipo poesia, que a pessoa lê rapidinho, e livros longos como romance ou não ficção, em que o interessado escolhe investir seu tempo na leitura. Crônicas tem um poder enorme de profundidade e reflexão, ainda assim, não são lidas nos 15 segundos de um storie, ou nos 90 segundos de um reels e não cabem nos 60 segundos que os especialistas dizem ser o tempo máximo para prender a atenção de um espectador nas redes sociais hoje. Aliás, eles dizem que se os primeiros segundos não forem arrebatadores, o vídeo não ganha a audiência. Textão então? Parece que ninguém mais lê naquele ambiente de redes sociais, além do mais, o número de caracteres disponíveis não é suficiente para eu me expressar. Não dá. Sou do time de pessoas que adentra na existência.

A profundidade na vida é como um mergulho no mar. Na superfície, tudo parece raso e agitado, um reflexo distorcido da realidade, cheio de ruídos e distrações. É fácil ficar preso ao brilho fugaz das ondas ou à turbulência das correntes mais visíveis. Mas, à medida que mergulhamos mais fundo, abandonamos a superficialidade e encontramos um universo oculto, cheio de mistérios, desafios e beleza. Cada metro descido revela algo novo: correntes invisíveis, cores vibrantes e criaturas únicas. Assim é a vida, as maiores descobertas e o verdadeiro sentido só se revelam quando temos coragem de explorar além do que os olhos alcançam, enfrentando a pressão, mas também encontrando a paz no silêncio das profundezas.

No auge dos 40 anos, tendo visto a chegada da internet banda larga no Brasil, o surgimento das primeiras redes sociais e a transição da conexão discada para Wi-Fi, posso afirmar que a velocidade ajudou e muito nossa vida tecnológica, mas a vejo passando tão rápido que vem atropelando nossa capacidade de atenção e memória, influenciando nossos desejos e nos deixando reféns do prazer momentâneo.

No livro Nação Dopamina[1], a Dra. Anna Lembke, explora como o excesso de estímulos e prazeres instantâneos na sociedade moderna está nos afetando profundamente. A autora, que é psiquiatra e especialista em dependências, mostra como vivemos em uma era de hiper estimulação, com acesso fácil a recompensas rápidas, como redes sociais, comida, compras, drogas, e até trabalho.

Nesse cenário, confesso que algo peculiar tem me causado espanto. Após a cultura de escutar áudios em velocidade acelerada, os próprios criadores de conteúdo estão publicando vídeos acelerados para conseguirem prender a atenção do público cada vez em menor tempo. De coração, eu não consigo. Gravo vídeos lendo meus textos e o que mais escuto é que eles não serão tão vistos por serem longos demais, e estamos falando em vídeos de 3 a 5 minutos em média. Me sinto frustrada, óbvio, mas não vou me render a uma era que de 30 em 30 segundos muda de interesse, troca de assunto e substitui sua mais nova preferência da vida.

Nos meus pensamentos mais sigilosos, me pergunto: qual a importância do estudo em um mundo onde as pessoas estão sendo contratadas de acordo com o número de seguidores? Se eu não tiver um perfil empolgante nas redes sociais para vender meu trabalho, eu não existo? Se eu não gostar de me expor criando conteúdo freneticamente em frente a uma câmera, não terei cliente, paciente, usuário do meu trabalho?

Como sobreviver a um mundo que dá valor a saúde mental, consumindo-a nas redes sociais?

A resposta é mais individual do que coletiva e perpassa pela história de vida de cada um, e é por isso que afirmo, vou continuar levando minha forma de escrita para o mundo do jeitinho que ela é, com – ainda – poucos, mais fiéis leitores e ouvintes e sem me preocupar com o número de seguidores nem com o tempo do vídeo, simplesmente por uma razão: já me perdi de mim uma vez e sei que não quero voltar para esse lugar.

Se para conquistar meu sonho, preciso mudar quem sou, resisto. Não vou me render nem me diminuir para caber em 60 segundos.

Karina Zeferino


[1] Lembke, A. Nação Dopamina: Por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar? Vestígio, 2022

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