Carta de alforria para a Felicidade

São Paulo, 26 de abril de 2020

            Hoje eu renuncio à insana busca de te encontrar.

            Hoje eu abro mão da luta que travei comigo mesma para me sentir bem somente na sua presença.

            Hoje eu entendo que quanto mais te persigo, mais você foge; acho que você é um pouco parecida comigo: temos medos.

            Temos medo de ser tão esperada, tão aguardada. Essas expectativas são difíceis de serem supridas, por isso as vezes é mais fácil fugir a ter que encarar a frustração de talvez não ser tão boa quanto esperam de nós.

            Hoje percebo o quanto é cansativo e o quanto é decepcionante sempre estar em busca e nunca encontrar. Hoje sei que é irreal e até suicida a forma como nos instigam a te encontrar. Hoje vejo que quanto mais eu sei que é você que quero encontrar, mais paredes nesse labirinto parece levantar.

            Desisto.

            Não de você, sei que você existe, mas desisto de te encontrar.

            Gastei todas as minhas energias acreditando que quando eu te encontrasse tudo seria diferente. Me iludi nos meus próprios pensamentos, que te encontrar era a única possibilidade para meu bem-estar. Me feri quando me armei de munições para tentar tirar do caminho tudo o que atrapalhasse te enxergar.

            Corri 

            Lutei

            Cai

            Levantei

            Sofri

            Chorei

            Perdi

            Encontrei

            Mas em um segundo, como água você escorreu de minhas mãos e me decepcionei, me frustrei, chorei e cansei. 

            Desisto.

            Não desisto de você, em algum lugar aqui dentro de mim sei que você existe, mas desisto de precisar de você. Desisto da necessidade de ter você ao meu lado caminhando comigo nos passos mais básicos do dia a dia.

            Talvez eu tenha criado uma ideia irreal de que eu preciso de você porque sem você não tenho nada, e sem nada me sinto sozinha, e sozinha dói, e a dor é um lugar que já conheço, mas não quero estar novamente.

A verdade é que chegou o momento de eu tirar de uma vez por todas a última camada que me cobre os olhos para que eu não me veja como sou, talvez por vergonha da nudez diante de mim mesma, talvez por medo do que vou encontrar, talvez por ter idealizado um eu que não existe e que não é nada além de um corpo envelhecendo, um coração retalhado e uma alma cheia de defeitos.

            Tenho medo de me ver nua.

            E você felicidade, era a última roupa que me cobria de esperança de ver um eu mais colorido, um eu mais apresentável à sociedade. Mas talvez eu seja só um monte de ossos tentando me alimentar e me apropriar de você para ficar em pé.

            Chegou a hora de parar de judiar de mim mesma e de te perseguir. Desculpa te fazer correr de mim, não tive a intenção de te assustar, hoje vejo que quis me alimentar de você por não gostar do meu próprio alimento.

            Te alforrio, te deixo livre, te deixo ir, vou encarar o que sou sem o que inventei que seria com você. Talvez a gente se esbarre por aí qualquer dia desses e vou ter muito prazer em te conhecer melhor, mas não tenho mais pressa, nem ao menos tenho esse objetivo, e por mais triste que pareça, não tenho mais esperança; sei que você só se faz visível a quem nem sabe que te procura.

            Vou me satisfazer com “estar bem”, vou tentar sorrir de piadas idiotas, vou me permitir ficar “ok”. Me liberto da ideia de que sem você não sei viver e te liberto da pressão de ter que estar comigo a qualquer preço.

            Quando você quiser estar comigo, bata a minha porta, terei aprendido a me ver, me ter e me amar sozinha e será um prazer deixar você entrar para compartilhar do que sou de verdade.      

Karina Zeferino

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