Não aprendi a lidar com a raiva

Um.

Um segundo, e quando percebi, já tinha abaixado o vidro do carro e gritado com o cara do estacionamento.

Ergui o vidro.

Silêncio.

Um pouco de vergonha, um pouco de alívio. 

Muita confusão.

Será que era banal demais pra tanto descontrole?

Me culpei pelo escândalo a céu aberto, que não durou mais de 10 segundos.

Será que pareci corajosa? 

Ou louca? 

Provavelmente louca.

Eu — regulada emocionalmente, adepta da comunicação não violenta, mediadora de conflitos…

A cena se repete na minha cabeça. Por que perdi a linha por algo tão pequeno?

A resposta é óbvia. Tão óbvia que Freud riria, sarcástico, se eu estivesse deitada em seu divã:
não aprendi a lidar com a raiva.

Lembro claramente da primeira vez que disse que estava brava. Devia ter uns 7 anos. Minha mãe, com sua voz doce, me respondeu:

— Não, filha, você não está com raiva. Menina boa tem sentimentos bons.

Fiquei pensativa.

Na vez seguinte, ainda mais brava, disse que estava com ódio. Na minha cabeça, não era raiva, então eu ainda era uma menina boa.

Mas os olhos da minha mãe cerraram. Ela respondeu com firmeza:

— Não fale essa palavra. Ódio é feio.

Com 8 anos, meu maior objetivo era que gostassem de mim. E, para isso, eu precisava ser boa. Qual outro objetivo uma menina poderia ter no início dos anos 90? 

Mas ser boa era difícil.

Porque eu sentia raiva.

Ódio, às vezes.

Só não podia dizer.

Fui me calando.

A cada situação ruim, silenciava.

E percebia que as pessoas ao meu redor gostavam disso.

Quem cuidava de mim dizia com orgulho:

— Essa menina é um amor. Não dá trabalho nenhum.

Nessa hora, eu endireitava a coluna e sorria, querendo gritar por dentro:
sou eu! Podem gostar de mim?

Mas essa imagem de boa menina falhava sempre que encontrava meus primos.

Eles, meninos mais velhos, às vezes se cansavam da caçula que mal sabia empinar pipa, e me deixavam de lado.

Eu bufava em silêncio — testa enrugada, bochechas vermelhas.

E quando um deles provocava demais, eu explodia.

Vou descrever: ele, muitos centímetros mais alto, colocava os braços na minha cabeça e me mantinha longe com facilidade. Eu socava o ar. Chutava o ar. Ele ria. E quanto mais ele ria, mais raiva eu sentia. Até que usava minha única arma: as unhas. Cravava as dez no ombro dele e arranhava até o fim. Marcas vermelhas. Às vezes, sangue.

Só então eu respirava aliviada.

Vingança feita.

Ufa.

Mas aí vinha a culpa.

A bronca.

A certeza: fui uma menina má.

Reprimia. De novo.

Mais fundo.

Passei a vida sentindo raiva — em graus variados — sem poder nomear.

Mais de 20 anos depois, finalmente aprendi: raiva é uma emoção humana, básica, natural. O problema não é senti-la, mas o que fazemos com ela. Mesmo assim, toda vez que verbalizo essa emoção, me sinto… errada. 

Pequena. 

Má. 

Não culpo minha mãe, nem ninguém.

Eles só repetiram o que aprenderam.

É social.

É geracional.

Mas é também desumano.

Entrar em terapia foi, entre outras coisas, reaprender a sentir.

E só então, decidir o que fazer com o que sinto.

Mas confesso: até hoje dá taquicardia quando falo sobre a raiva.

Toda vez é um exercício de acolhimento.

De repetir pra mim mesma: tá tudo bem sentir.

Tá tudo bem mostrar um lado meu que talvez não seja bonito, mas é meu.

É humano.

É corajoso me mostrar vulnerável.

Hoje já consigo me abraçar.

Com a compreensão que mereço.

Mérito da minha psicóloga, que repetiu quantas vezes fossem necessárias, até eu acreditar.

Deu certo.

Hoje tenho esperança.

De que as crianças possam aprender a sentir.

A nomear a raiva.

A expressá-la.

A confrontá-la.

E que possam gritar com o cara do estacionamento quando ele merecer, sem achar que estão fazendo algo errado.

Mesmo que só aprendam isso aos quase 40 anos de idade.

Karina Zeferino

Table of Contents

Posts Relacionados

Uncategorized

CRÔNICA DE RUBEM ALVES

TÊNIS OU FRESCOBOL? Depois de muito meditar sobre o assunto, conclui que os casamentos são de dois tipos: há casamentos do tipo tênis e do

Leia Mais »