Várias frases me marcaram na vida, mas algumas ressoaram mais alto.
São essas que me chamam atenção, porque sei que nelas há algo a ser descoberto.
Uma dessas frases eu escutei numa época em que tudo era incerto, exceto a agressividade do interlocutor:
— Você não se encontrou ainda na vida.
Na época, eu tinha 30 anos, aquela idade em que a sociedade espera que você já esteja “estabilizada”: profissão definida, relacionamento fixo, bens no seu nome, e uma série de itens da cartilha da vida: crescer, se formar, namorar, casar, comprar um carro, uma casa, viajar, ter filhos, um cachorro…
Só depois disso, você é considerada bem-sucedida.
Mas ali, naquele momento, eu estava divorciada, de volta à casa da minha mãe, recém-saída de um emprego dos sonhos que se revelou um pesadelo e nem o carro no qual eu andava estava no meu nome.
Quando ouvi aquela frase, senti raiva.
Muita raiva.
E neguei — com o corpo, com o rosto, com um sorriso amarelo.
Isso prova duas coisas: primeiro, que era verdade.
Segundo que eu ainda me comportava como esperavam: a menina que não contraria ninguém.
Sempre que me posicionei, me chamaram de rebelde.
Quando fiz o que queria, fui chamada de egoísta.
Quando tive opinião contrária, me rotularam de teimosa.
Assim, fui sendo moldada para o que hoje entendo ser o ideal de mulher numa sociedade patriarcal: obediente, submissa, emocionalmente dependente, vaidosa e sempre sorridente — apesar de tudo.
Me achava errada.
Carregava uma angústia no peito:
“Tenho tudo o que dizem que é a fórmula do sucesso… por que não sou feliz?”
E então vinha a culpa:
“Tem pessoas com menos e é grata. O que fiz de errado se segui à risca o roteiro?”
Talvez não estivesse me esforçado o bastante.
E então recomeçava: tentava mais uma vez me encaixar, ser amada, aceita, perfeita.
Uma dessas coisas, pensei, seria suficiente para tirar a dor do peito.
Para me fazer pertencer.
Demorei a entender que o que aquela frase dizia — “você não se encontrou na vida” — era verdade.
E a vida que eu não tinha encontrado ainda era a minha própria.
Quem eu era sem a casca moldada pela sociedade?
Quem eu seria se não precisasse ser o que esperavam de mim?
Quem eu realmente gostaria de ser?
Já não sabia a diferença entre o que eu gostava e o que haviam me ensinado a gostar — na comida, nas roupas, nos costumes, na cultura.
Eu não me reconhecia mais.
Para iniciar o processo de autoconhecimento, precisei abandonar tudo o que sabia sobre mim.
Me desnudar.
Ficar vulnerável diante de um mundo que não perdoa quem escolhe ser livre.
Não sabia que seria tão doloroso desapegar do conhecido.
Ficar sem chão.
Sem garantias.
Sem aplausos.
E, principalmente, precisar estar sozinha.
Para encontrar, entre tantas possibilidades, as peças que formariam o meu eu verdadeiro.
O que eu não compreendia era: por que a sociedade rejeita o que somos?
Nos molda… para depois nos punir pela desconstrução, e só então nos permitir a libertação?
Pessoas moldadas que não sabem quem são constroem outras para serem o que acham que devem.
Assim, ao invés de formar seres humanos, formamos soldados.
Reprodutores de um modelo.
Que não se importa se você está bem, apenas se você produz.
Depois da dor da desconstrução, veio uma fase menos difícil: experimentar.
Descobrir o que me faz bem, o que me faz mal, o que gosto, o que não gosto, o que quero, o que não quero.
Quais são os meus limites.
Essa fase foi de encontros.
De gozos.
De dores.
Muitas dores.
Crescer dói.
Para saber do que gosto, experimentei o que não gostei.
Para saber o que aceito, passei por situações que me fizeram mal.
Para entender meus limites, ultrapassei todos.
Caí. Me levantei.
Caí de novo. Me levantei outra vez.
Conheci o fundo do poço… e nele descobri uma mola.
Essa mola me empurrou de volta para o jogo da vida.
Aprendi o significado real de palavras como: superação, resiliência, ressignificação.
O mais difícil foi me encontrar comigo.
Olhar para dentro.
Encarar quem eu era.
Ver as qualidades. Ver os defeitos.
Me reconhecer.
Por muitas vezes, me esbarrei com a mulher que gostariam que eu fosse.
E precisei dizer a ela:
“não, obrigada.”
Assumir meus pontos fracos exigiu força.
Reconhecer minha vulnerabilidade foi um ato de coragem.
E aceitar minha imperfeição foi… libertador.
Aí encontrei a maturidade.
Conhecendo quem sou, pude escolher o que fazer com tudo o que me constitui.
Depois de tantas fases, de alegrias e dores, de prazeres e decepções, posso dizer com firmeza:
Aquela frase não mexe mais comigo. Porque hoje, eu me encontrei.
O passado causou dor.
Carrego cicatrizes como marcas de guerra.
Traumas que somatizei no corpo — e que ainda doem.
Menos, mas doem.
Já doeram mais.
E talvez nunca desapareçam completamente.
Mas sei: a dor de viver uma vida sem sentido, sem apropriação de mim, seria muito maior.
Hoje, apesar dos traumas, sou feliz.
Porque o que encontrei em mim é muito melhor do que aquilo que um dia tentaram me fazer ser.
Karina Zeferino


