Verão. Praia, sol, piscina, calor, cachoeira, mar. Biquíni.
Por anos, não me senti confortável em usar essa peça fundamental para viver a estação mais alegre do ano.
Cheguei a dizer para mim mesma que gostava mais do inverno — de como as pessoas se vestiam bem — e repeti algumas frases que, no fundo, só revelavam o quanto me sentia frustrada por não viver o verão como gostaria.
Meu corpo.
Era ele que eu queria esconder por trás de casacos e cachecóis, mesmo com uma vontade imensa de pular de cabeça em qualquer água que refrescasse minha pele e meus desejos.
Esses, aliás, aprendi a esconder bem escondidinho.
Fui adolescente nos anos 90.
A música exaltava o “corpão violão”, a TV o exibia em banheiras e programas de domingo. Eram mais desejadas as mulheres que tinham… um “tcham” a mais.
Os padrões eram impostos por concursos de beleza, desfiles, revistas.
A “boa forma” era o passaporte para pertencer.
Assim como escondi meu desejo de usar biquíni, os anos 90 esconderam milhares de mulheres com distorções de imagem, transtornos alimentares e corpos adoecidos por dietas, remédios e silenciamentos.
Tudo isso… para serem amadas.
Eu não fui uma criança gorda, mas na adolescência percebi meu corpo diferente dos que apareciam na mídia.
Me lembro bem: fotos do meu aniversário de 14 anos, na piscina com amigos.
Apareço de shorts, escondendo a barriga com os braços porque fui forçada a tirar a camiseta para entrar na água.
Hoje, olho para aquela garota e a acolho.
Perseguia padrões inalcançáveis e perdeu momentos de alegria espontânea.
Queria poder avisá-la: sua barriga era linda.
A reviravolta veio aos 15, com o que hoje reconheço como uma crise depressiva.
Engordei 14 quilos em três meses.
Quilos que pesaram o dobro — ou o triplo — nos anos 2000, quando a internet começou a comparar corpos e vidas perfeitas.
Em um gesto de rebeldia, escolhi Educação Física como profissão.
(Mas essa é uma conversa para outro momento…)
Demorei duas décadas para voltar a um IMC “normal”.
Mas as marcas, celulites e flacidez ficaram como testemunhas de anos maltratando meu corpo na busca por um ideal. Hoje me pergunto: ideal para quem?
Durante todo esse tempo, além de não aceitar meu corpo e suas marcas, deixei de viver.
Não usava biquíni.
Deixei de ir à praia, me refrescar em piscinas, mergulhar em cachoeiras…
Deixei de aproveitar o verão — que hoje sei e assumo: é minha estação favorita do ano.
Perdi tempo. E tempo não volta.
Não vou ser hipócrita: ainda me incomodam as gordurinhas, celulites e a pele flácida — que só se acentuaram com o tempo.
Mas não deixo de usar biquíni.
Hoje, consigo enxergar a vida além da pele que habito.
Aprendi a viver de dentro para fora.
E dentro de mim, há estações implorando para serem vividas.
Por aqui,
o verão será intensamente aproveitado. De biquíni.
Karina Zeferino


