Minha vizinha de garagem é uma senhora elegante, de fala mansa e olhos sempre atentos. Passa dos 80 anos, mas ainda carrega um ar de dignidade e leveza. Sempre que encontra meu cachorro, espanta-se com seu tamanho e docilidade. Mal sabe ela o quanto seguro forte a guia para evitar que ele pule, hábito que nem a melhor adestradora conseguiu corrigir.
Outro dia, ao estacionar, levei um susto ao vê-la sair do carro apressada, visivelmente aflita. “Que bom que encontrei alguém!”, disse, aliviada. Havia chegado há 20 minutos e não conseguia desligar o som do carro.
Prontamente, me ofereci para ajudar. Entrei no veículo e percebi que o som estava desligado. Mas, ao sair, ouvi uma melodia abafada. O som vinha de dentro da bolsa.
“Seu celular deve ter ligado a música sem querer”, expliquei com um sorriso. Ela arregalou os olhos, surpresa, e, num instante, sua expressão mudou, como se tivesse sido golpeada pela própria distração.
Com delicadeza, desliguei o aplicativo e garanti que era algo simples, que poderia acontecer com qualquer um. Mas foi então que ela suspirou, com um misto de decepção e cansaço, e murmurou:
“Meu tempo já acabou. Não acompanho mais.”
O silêncio entre nós pesou. Não havia palavra que pudesse dissipar aquela sensação.
Subimos juntas pelo elevador de serviço. Eu, com meu cachorro inquieto; ela, com o olhar distante. Nos despedimos no andar dela, mas as palavras ficaram comigo. Ecoaram na minha mente por horas, como uma verdade que, de repente, se impõe sem aviso.
Cinco anos antes, quando voltei à faculdade aos 35, senti o impacto da tecnologia. Tudo era diferente de quando cursei minha primeira graduação, quase duas décadas antes.
Naquela época, conexão era discada, baixar uma foto exigia paciência, assistir a um vídeo era um evento frustrante, marcado por telas de erro. Agora, documentos eram compartilhados em tempo real, reuniões aconteciam virtualmente e livros físicos deram lugar a aplicativos que não apenas armazenavam páginas, mas também resumiam seu conteúdo com inteligência artificial.
Enquanto eu lutava para me adaptar, meus colegas de classe, nascidos sob o flash da câmera frontal, navegavam nesse mundo com a naturalidade de quem sempre pertenceu a ele.
Lembrei-me de quando vi, no programa Fantástico, uma reportagem sobre a nova tendência das fotos: as “selfies”. Achei engraçado, um tanto narcisista. Mas me parecia ainda mais impressionante o fato de que, em tão pouco tempo, havíamos abandonado os filmes fotográficos, aqueles que levávamos para revelar e, dias depois, descobríamos repletos de erros: dedos na lente, cabeças cortadas, paisagens interrompidas.
Pensei em tudo isso enquanto subia pelo elevador. O mundo digital chegou a tempo para mim. Não sem dificuldades, mas consegui absorver dele o que me servia. Para minha vizinha, porém, parecia ser tarde demais.
O problema da ocasião foi apenas uma música tocando na bolsa. Mas, para ela, era muito mais do que isso. O celular, que um dia serviu apenas para chamadas telefônicas, agora abrigava passagens aéreas, senhas bancárias, pagamentos, confirmações de identidade. Chamadas, aliás, já são coisa do passado. A voz foi trocada por áudios e mensagens no WhatsApp. E ir ao banco? Uma perda de tempo.
Ela se adaptou tantas vezes que, enfim, cansou.
E sua frustração me fez pensar: será que estamos tão obcecados em correr atrás do novo que esquecemos de levar conosco aqueles que viveram o passado? Aqueles que testemunharam a Segunda Guerra Mundial, atravessaram a ditadura militar, se emocionaram com a chegada do homem à Lua?
Sinceramente, eu espero que não.
Porque, se assim for, sei que o tempo me alcançará também.
E, um dia, pode ser eu a próxima a suspirar diante do inevitável, percebendo que o mundo corre enquanto eu só consigo caminhar.
Karina Zeferino


