Nunca fui uma exímia cozinheira — nem ao menos gosto de me arriscar na cozinha — mas tenho paladar bem apurado e, ao longo da vida, desenvolvi a habilidade de reconhecer uma boa culinária.
Da mesma forma, aprendi a identificar um amor saudável.
Quando era mais nova, cuidava de meus amores como se cuida de uma panela em fogo alto. Assim como a comida que fica pronta rápido, eu carregava pressa de amar — tinha a chama acesa demais e a emoção no ponto da comida: ou cozinhava por fora, mas por dentro ainda estava crua; ou passava do ponto e queimava tudo.
Era sempre uma frustração.
Eu só era vista por fora — pela minha carne no ponto da flor da idade — ou era abusada física e emocionalmente a ponto de me queimar toda, demorando muito tempo para limpar a sujeira do abuso no fogão.
Mas a pressa de uma pessoa jovem é semelhante à de um cozinheiro sem paciência: dá certo na sorte de vez em quando, mas na maioria das vezes o prato é entregue sem alma — sem aquele toque do chef que faz o cliente querer voltar.
Depois de me servir queimada muitas vezes para pessoas cruas por dentro, resolvi aprender a cozinhar.
Experimentei algumas técnicas. Entendi o contraste de sabores e texturas que um prato precisa ter para encantar o paladar. E principalmente: que tipo de comida harmoniza com qual tipo de vinho.
Comecei a gostar de pratos agridoces — porque os ingredientes, quando juntos na boca, fazem uma explosão de sabor extasiante.
Mas entendi que não é qualquer doce com salgado que fica bom. São alguns alimentos que se assemelham na diferença.
Percebi que assim também pode ser entre duas pessoas.
A princípio, os opostos até combinam — mas, para a explosão de sabor acontecer, precisam de alguma afinidade.
Não adianta ser totalmente oposto em valores, princípios ou ideologia política, mesmo sendo homogêneo na cama. Em algum momento vão precisar sair dela. E na hora de enfrentar o mundo, esses sabores vão brigar na boca.
Aprendi, além disso, que a apresentação do prato importa muito para a vontade de experimentar —
mas o que determina se um prato é bom de verdade é, nada mais nada menos, que o sabor.
É o paladar que conquista a vontade de repetir a refeição — assim como não dá vontade de voltar a conversar com uma pessoa bela que não tem conteúdo.
Inclusive, uma das coisas mais gostosas de aprender foi como um bom e equilibrado prato combina muito com o vinho certo.
Aquela explosão de sabor pode ir para um nível de orgasmo culinário quando bem harmonizado.
Da mesma forma, duas pessoas que combinam nas conversas, nas risadas e na pegada… podem explodir quando se tocam.
Foi estudando sobre culinária que entendi meu jeito de amar.
Escolho os ingredientes com calma — como conheço uma pessoa sem pressa.
Preparo um a um antes de acender o fogo — bem como gosto de conversas profundas sobre assuntos diversos antes de me entregar, para não queimar etapas.
Misturo o conteúdo em fogo baixo — assim como devagar vou me aproximando, sentindo o toque, o cheiro — e o calor vai esquentando.
Como numa comida que precisa de um tempo maior para ser preparada e vai se maturando em fogo brando, vou me dedicando diariamente ao “nós”:
cuidando, surpreendendo, considerando as particularidades.
Tranquila. Sem pressa.
Observando se os ingredientes estão se misturando de forma recíproca.
E, do mesmo modo que, quando o prato fica pronto, ele merece um vinho à altura para aquele clímax…
o “nós”, quando se une com amor, explode igualmente.
É a harmonização perfeita de duas pessoas que escolhem estar juntas.
Gosto de cozinhar em fogo baixo.
Gosto de amar em paz.
A paixão pode até ser mais apetitosa quando cozida em fogo alto…
Mas amar?
Amar é cozinhar em fogo baixo.
Karina Zeferino


