Medida Provisória para a Morte

Ela fez tudo certo.

Percebeu os sinais. Rompeu o ciclo. Fugiu.

Sentiu o medo na espinha, a urgência no peito e buscou ajuda.

Chegou à delegacia carregando o coração em ruínas, mas firme na decisão de sobreviver.

Foi recebida com impaciência, olhares de desdém, burocracia fria.

“Tem certeza de que é grave?”, perguntaram.

“Você provocou?”, insinuaram.

“Ele nunca te bateu antes?”, questionaram, como se a faca precisasse já estar cravada para que a dor fosse válida.

Mesmo assim, saiu de lá com uma folha de papel na bolsa.

Uma medida protetiva.

Voltou para casa sozinha, porque ninguém a escoltou.

Fechou portas e janelas, porque ninguém garantiu sua segurança.

Esperou o medo passar, porque disseram que agora estava protegida.

Mas ele veio.

Ele sempre vem.

Invadiu, ignorou papéis, leis, súplicas.

E fez o que tantos fazem todos os dias, impunes, previsíveis, brutais.

Quando os jornais noticiaram, disseram que era tragédia.

Mas tragédia é acaso, é surpresa.

Isso não foi acaso.

Foi rotina.

Foi descaso.

Foi mais uma vez.

As mulheres estão se conscientizando.

Os homens continuam matando.

E até quando?

Karina Zeferino

(Texto baseado em fatos reais)

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