Não tenho verdades absolutas, tenho certezas passageiras

Já acreditei em muitas verdades que hoje não passam de lembranças gastas. Tive certezas que pareciam sólidas como pedra, mas se desfizeram ao toque do tempo. No instante em que as abracei, eram tudo o que eu sabia, tudo o que eu era. Foi assim que descobri com o exemplo do meu pai, que nem todos os pais faziam tudo por seus filhos. A vida – essa eterna professora do improvável – mostrou que certezas também têm prazo de validade.

As estações me ensinaram isso. O que hoje floresce exuberante em mim, amanhã pode ser outono e cair sem aviso. O que hoje é frio e melancólico como o inverno pode, num sopro, se derreter sob um novo sol. E não há como segurar o verão dentro das mãos, porque ele escorre como areia, como vida. Aprendi que resistir às mudanças não impede que elas aconteçam; só me torna espectadora aflita do inevitável. Desta forma aceitei que hoje adoro o risoto que sempre odiei, assim como não desejo mais conviver com quem já amei.

Quando crianças, temos a certeza de que nossos pais são inabaláveis, invencíveis. Crescemos e descobrimos que eles também são frágeis, humanos. Na juventude, acreditamos que o amor verdadeiro dura para sempre, até que sentimos na pele o frio de despedidas inesperadas. Há momentos em que temos a convicção de que certas amizades nunca se perderão, até que a vida nos afasta em direções opostas. Achamos que sabemos quem somos, até que um evento transforma tudo e nos obriga a nos reinventar. Me conhecendo profundamente percebi que na questão que menos desconfiava, minha orientação sexual, foi a que me fez desmoronar mais verticalmente, para que pudesse me reconstruir com os alicerces sólidos da minha própria vontade.

Ainda assim, insisto em colecionar certezas passageiras. Elas me dão um norte, ainda que provisório. Hoje, por exemplo, tenho a certeza de que estou viva. Mas até quando? Nenhum de nós sabe. Vivemos como se fôssemos perenes, como se a morte fosse uma lenda distante, uma ficção que não nos alcança. E, no entanto, a finitude nos observa em silêncio, sem pressa, esperando o momento de nos lembrar que a qualquer instante podemos nos tornar apenas um vestígio de primavera. É por isso que digo “eu te amo” todos os dias para a pessoa com quem convivo, porque quando essa hora chegar, não carregarei dúvidas de que ela sabia – sentia – que eu a amava.

Isso deveria nos assustar, mas talvez seja um presente. Saber que tudo passa, que tudo muda, nos ensina a não nos apegarmos demais ao que hoje chamamos de verdade. A viver cada estação por inteiro, sem pressa para o verão chegar, sem medo do inverno que virá. Porque, no fim, não é sobre estar certo. É sobre estar presente.

Karina Zeferino

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