No começo, era só um esquecimento aqui, outro ali. Pequenas distrações que qualquer um tem.
Alice acendia o fogo e esquecia de apagar. Deixava as chaves na geladeira e o leite dentro do armário. Saía para caminhar e, por um instante, não lembrava qual direção tomar para casa. Voltava pelo cheiro do pão da padaria na esquina. Voltava porque, no fundo, ainda sabia que havia um lugar para onde voltar.
Mas, aos poucos, o tempo começou a desfiá-la.
Um dia, esqueceu o nome da rua. Depois, o nome das coisas. Tentou dizer “copo”, mas só encontrou o vazio.
“Passa isso pra mim?”, ela pediu ao filho, apontando para o nada.
Ele olhou para a mãe, sem saber o que doía mais: o esquecimento ou a consciência dele.
Alice, a mulher de voz firme, de mãos calejadas pelo peso da vida, começou a perder o fio que a ligava ao mundo.
A memória foi se apagando aos poucos, como uma vela que queima devagar até restar apenas a sombra do que foi.
Um dia, olhou para a filha e perguntou: “Quem é você?”
A filha sorriu, mesmo com o peito partido. “Sou eu, mãe.”
Alice franziu a testa. “Eu conheci uma menina com o seu nome…”
A filha engoliu o choro.
O luto veio antes da morte.
Alice esqueceu o rosto dos netos. Depois, o próprio rosto.
Passou a falar com a mãe, morta há mais de trinta anos. Perguntava se o pai já tinha chegado do trabalho.
E, na última camada do esquecimento, Alice desaprendeu a andar, a segurar o garfo, a dizer palavras inteiras.
Restaram os olhos.
E, às vezes, em dias de sorte, neles havia um brilho distante.
A filha segurava sua mão, contava histórias que talvez nunca mais fossem ouvidas.
“Você foi forte, mãe. Você lutou tanto.”
Talvez Alice tenha esquecido para não lembrar da dor que a vida lhe deu.
Talvez esquecer tenha sido a única fuga possível.
Talvez a mente tenha sido gentil, apagando cada cicatriz antes do fim.
Alice partiu um dia qualquer, como um livro que se fecha devagar, sem alarde.
A filha chorou. Mas a verdade é que o luto já havia começado anos antes.
Quando Alice partiu, o que restou foi um corpo vazio, porque sua alma já tinha ido embora, página por página, memória por memória, até não sobrar mais nada.
Alice viveu uma vida inteira, mas terminou sem lembrar de nada dela.
E isso talvez tenha sido o preço. Ou a salvação.
Karina Zeferino


