“Você já percebeu que o mundo funciona ao contrário?” Foi assim, como palavras que surgem ao vento, que uma pessoa desconhecida me trouxe de volta ao presente em uma fila do supermercado.
Filas me entediam muito mais morando em São Paulo do que no interior. Lá, qualquer momento na rua era chance de encontrar um conhecido e colocar o papo em dia. As filas mal davam tempo de atualizar as notícias de todos, haja vista que conheciam algumas gerações da minha família. Em São Paulo, não. Além das pessoas estarem todas com a cabeça baixa, imersas em seus celulares, e não termos intimidade com ninguém, o ritmo da cidade é acelerado e, por mais que eu esteja no horário com meus compromissos, quero que a fila ande depressa, os carros acelerem no farol e as pessoas caminhem a passos rápidos à minha frente.
Não estou falando mal de São Paulo. Amo essa cidade e não a trocaria, mas é fato que, se não tomarmos cuidado, a velocidade nos engole aos poucos, como uma areia movediça, sem que sequer lutemos contra.
“Desculpe”, respondi, meio envergonhada, ao constatar os olhos da mulher esperando uma resposta.
“Quando paramos de correr atrás, as coisas vêm até nós. É o fluxo natural do universo”, ela disse, já se encaminhando para o caixa sem me dar tempo de questionar suas palavras.
O próximo caixa me chamou e, quando terminei de passar os poucos pacotes que tinha em mãos, olhei para trás e não a encontrei mais. Poderia ser somente uma conversa aleatória em uma fila, mas a certeza com que me disse aquela frase foi tão grande que ecoava em minha mente.
“Ao contrário”. “Ao contrário”. “Ao contrário”.
Como eu nunca pensei nisso antes?
Aconteceu comigo. Enquanto eu procurava que pessoas gostassem de mim, mais sozinha eu ficava, e foi quando aprendi a ficar sozinha que me enchi de amigos querendo estar ao meu lado. Quantas vezes me preocupei com as opiniões dos outros e me enquadrei nas regras sociais para pertencer ao grupo, mas foi quando parei de querer agradar que as pessoas começaram a admirar minha autenticidade. Quando parei de procurar, tudo o que eu precisava chegou até mim. Quando parei de forçar, mais minha vida fluiu. Quando soltei todas as minhas necessidades, recebi tudo o que esperava e ainda mais coisas que eu nem sonhava chegaram até mim.
O universo não responde ao desespero, à pressa e à ansiedade. Ele responde à confiança, ao equilíbrio e à entrega.
Que paradoxo. Até parece uma pegadinha da vida. Primeiro, você aprende do que precisa para, então, renunciar à necessidade. Só assim recebe.
Dentro dos meus pensamentos, cheguei ao carro com uma ansiedade boa acelerando meu coração, como se tivesse acabado de descobrir um segredo que mudaria o mundo. Talvez a pretensão fosse grande demais, mas, naquele momento, uma frase impactou tão forte a minha vida que foi capaz de transformá-la numa fila de supermercado.
Talvez eu estivesse aberta ao aprendizado. Talvez fosse a mensagem que eu precisava para acalmar o coração. E talvez aquela mulher nem estivesse falando sobre o que eu entendi.
Entrei no carro, mas não dei a partida de imediato. Do lado de fora, o mundo continuava seu ritmo acelerado. Um homem corria apressado com sacolas pesadas, tentando alcançar um ônibus que partia sem esperar. Uma criança soltou o balão que segurava com força, e só então ele flutuou até suas mãos novamente.
Observei tudo aquilo e senti um sorriso escapar. O mundo funciona ao contrário, não é? Quanto mais corremos atrás, mais as coisas nos escapam. Mas, quando soltamos… elas vêm.
Ainda com a chave na ignição, olhei ao redor, como se esperasse encontrar aquela mulher misteriosa mais uma vez. Mas ela já não estava lá. Talvez nunca tivesse estado. Talvez fosse só um reflexo do que eu precisava ouvir.
Respirei fundo, liguei o carro e, desta vez, não tive pressa.
Karina Zeferino


