Entre cascas e princípios

Desde a adolescência, quando comecei a me interessar por relacionamentos, ouço a frase: “os opostos se atraem”. Nunca soube ao certo quem cunhou essa teoria. Às vezes eu acreditava nela, outras vezes, não. Até que um dia — entre um pão quente e um silêncio confortável — ela fez sentido para mim.

Era fim de tarde, daqueles comuns em que o tempo parece desacelerar. Eu e Marina voltávamos para casa depois de buscar Bolão na creche. Sim, levamos o cachorro à creche duas vezes por semana. É nossa premissa: ele merece a melhor vida de cão que podemos oferecer — e isso não inclui passar o dia inteiro sozinho.

Na volta, resolvemos passar na padaria. Me diga: alguém consegue comprar pão recém-saído do forno, com o saquinho meio aberto pelo vapor, sem beliscar um pedacinho no caminho? Eu, definitivamente, não consigo.

Peguei um pedaço da casca crocante e até fechei os olhos. O som da crocância é, para mim, uma música. Marina me olhou com aquele ar de quem aguarda a própria vez. Lembrei, então, que sua parte preferida é o miolo. Que combinação perfeita — eu fico com a casca, ela com o miolo. Dividimos, não por solidariedade, mas porque cada uma prefere justamente o que a outra dispensa. E foi ali, entre farelos no banco do carro e um gole de café, que a velha frase fez algum sentido: às vezes, amar alguém que gosta do oposto é, no mínimo, conveniente.

Acontece também com o petit wafer que vem acompanhando o café. Ela gosta do cabinho. Eu, da parte coberta de chocolate — claro. Trocamos. E seguimos felizes, cada uma com sua xícara.

Mas o amor não se sustenta só dessas pequenas trocas saborosas. Elas adoçam o cotidiano, mas não sustentam uma vida a dois. Então pensei em tudo o que temos de comum — e de oposto.

Nas miudezas, nos equilibramos. Ela me leva ao cinema para ver filmes que eu jamais escolheria sozinha. Eu a convido para palestras de psicanálise que ela nunca cogitaria ir. Ela me explica como funciona o mercado financeiro. Eu a provoco com perguntas filosóficas que não têm resposta. Nisso, nos complementamos. Gostamos de ensinar, de descobrir, de compartilhar.

Mas há aspectos em que os opostos não se encaixam — pelo contrário, afastam. Para mim, isso se revela nos princípios, nos valores, nas intenções de futuro. Há divergências que cabem numa mesa de jantar. Outras que implodem qualquer possibilidade de sentar-se à mesma mesa. Amor algum resiste quando a essência caminha em direções opostas.

A afinidade que mais prezo, por exemplo, é a capacidade de conversar sobre tudo — inclusive sobre o que dói. Aqui em casa, quando o assunto aperta, abrimos um vinho e abrimos também os ouvidos. Escutar, hoje, é um verbo cada vez mais raro. E talvez por isso tão precioso.

Entre todas as convergências que temos, uma delas é inegociável para mim: a ideologia. Não sei amar alguém que vote contra o que eu considero dignidade. Não sei conviver com quem se alimenta de um mundo que me indigna. É como preferir o miolo completamente cru ou a casca totalmente queimada — se é que você me entende.

Talvez seja isso: no amor, como no pão, os extremos queimam ou empapam. O ponto certo mora no meio — no equilíbrio entre o que oferecemos e o que escolhemos manter. E se tiver uma casca crocante dividida com miolo macio, melhor ainda.

Karina Zeferino

Table of Contents

Posts Relacionados

Uncategorized

CRÔNICA DE RUBEM ALVES

TÊNIS OU FRESCOBOL? Depois de muito meditar sobre o assunto, conclui que os casamentos são de dois tipos: há casamentos do tipo tênis e do

Leia Mais »