5 anos

Estágio. Prova. TCC.
E uma cabeça cheia de responsabilidades para encerrar, enfim, esses cinco anos que passaram tão… depressa?

Olho para trás e tenho a estranha sensação de que os anos voaram, enquanto os dias — tantos deles — se arrastaram.
Dizem que a faculdade é uma experiência única. Para mim, foi mesmo.
Voltar à universidade em plena pandemia, trocar de carreira aos 40 anos e ainda aprender a estudar pelo Zoom, trabalhar em grupo no Meet e fazer provas pelo Teams… não estava nos meus planos de vida. Mas virou minha vida.

A matrícula ainda está viva na memória.
Sentada na secretaria, vendo meu nome naquela pasta verde, senti o coração bater forte como se eu tivesse dezoito anos outra vez. A diferença é que, desta vez, a escolha era inteiramente minha — e também a responsabilidade.

Me perguntava: Será que consigo?
Mas, no fundo, a dúvida mais profunda era: Será que sustento cinco anos de dedicação só porque acredito que serei mais feliz? Será que posso fazer isso… agora?

A faculdade de Psicologia me respondeu com um sonoro sim.
Sim, posso mudar de ideia com quantos anos eu tiver.
Sim, posso recomeçar mesmo tendo já uma carreira consolidada.
Sim, posso confiar naquilo que me move — mesmo sem garantias.

A pandemia, aliás, veio como um empurrão.
Se o mundo estava virando do avesso, eu queria virar junto.
Não queria sobreviver a tudo aquilo tendo ignorado meu desejo mais íntimo.

Entre as tarefas e os relatórios, o tempo foi passando.
Voltei a estudar no intervalo entre lavar e estender roupa.
Preparei resenhas entre o almoço e o jantar.
Os livros ocuparam a mesa de casa, e as noites foram preenchidas por trabalhos e preocupações.
Não foi fácil. Mas foi profundamente transformador.

Enquanto estudava sobre o mundo, fui me descobrindo.
A cada aula, minha mente se expandia — e às vezes explodia.
As conversas com as professoras me traziam sabedoria.
As discussões em sala, indignação.
As pesquisas cansativas, resultados incríveis.
Não há como sair igual de uma jornada dessas.
Aquela que achava que sabia muita coisa descobriu sua ignorância.
A que se dizia destemida, encarou seus medos.
A que confiava na própria maturidade, descobriu-se aprendiz.
E a que se julgava indispensável, entendeu que pode ser só uma entre tantas — e ainda assim ser relevante.

“Depende” foi a palavra que mais escutei.
A que mais me irritou.
E a que mais me transformou.
Porque quase tudo na vida… depende mesmo.

As aulas viraram assunto de terapia.
Os estágios furaram minha bolha.
As supervisões me colocaram diante do outro — e diante de mim.
A convivência com gerações mais jovens foi, ao mesmo tempo, divertida e reveladora:
as gírias que não entendi, os dramas que já vivi, os dilemas que não são tão diferentes assim.
Aprendi com cada diferença.

E me emocionei com cada impacto.
Nas escolas, nas delegacias, com refugiados, nas ONGs, na clínica e — especialmente — nos plantões psicológicos, vi realidades que transformaram minha forma de enxergar o mundo.
Percebi que não vou salvar o mundo.
Mas posso fazer a diferença na vida de alguém.
E isso é o que basta.

Entre abraços nos corredores, cafés nas supervisões, risadas nos intervalos e trocas profundas até no elevador, construí algo maior que um diploma: construí memórias.
Hoje me dou conta do quanto essa rotina fará falta.
A razão quer só dar check nas obrigações.
Mas a emoção pede: sente. Respira. Agradece. Vive esse final com presença.

E ao passar pela catraca da faculdade — aquela que sempre travava nos dias de pressa — me dei conta:
em breve, não passarei mais por ali.

O décimo semestre, que parecia inatingível, está acabando.
O que parecia impossível, se cumpriu.
E aquele medo que me acompanhava em 2020 deu lugar ao orgulho.

Hoje tenho certeza de que fiz a escolha certa.
Não sem dores. Não sem dúvidas.
Não sem cansaço. Mas com coragem.

E com transformação.

Talvez essa seja a grande herança da Psicologia: me ensinou a sentir.
A escutar. A mudar.
E a saber que as perguntas não precisam ser temidas.
Elas não vêm mais para me assustar.
Vêm para me guiar.

E hoje, depois de tudo, me sinto pronta.
Para o próximo passo.
Para a próxima pergunta.
Para a próxima versão de mim.

Karina Zeferino

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