Nosso amor é brega

Quando criança, aprendi muitas coisas que precisei desaprender à medida que crescia,
algumas por crenças familiares,
outras por convicções sociais que mais aprisionam do que libertam.

Nos ensinam a caber em rótulos prontos, socialmente aprovados,
mesmo que isso custe a nossa felicidade.

Entre tudo o que precisei desconstruir,
o amor foi, sem dúvida, a descoberta mais reveladora.

Me contaram muitas histórias sobre ele.
Na infância, diziam que o menino que implicava comigo fazia isso porque gostava de mim.
Na adolescência, justificavam cenas de ciúmes com a frase: “quem ama, cuida”.
Quando um namorado tentava controlar meus passos, me garantiam que era preocupação 
e que eu era sortuda por ter alguém que “zelava” por mim daquele jeito.

Confundiram minha cabeça com arbitrariedades disfarçadas de cuidado.
Fizeram parecer natural o que nunca deveria ter sido normal.
Desprezaram a ternura, desdenharam do afeto leve,
e chamaram o clichê de cafona, como se amar sem sofrimento fosse piegas.

Assim, fica fácil cair na armadilha do abuso,
quando ele vem travestido de dedicação.

Nunca me foram naturais as frases prontas sobre relacionamentos.
Sobre o amor ser difícil, custoso, um fardo necessário.
Mas quem destoava disso era vista como rebelde,
rotulada de “revoltada”,
como se esperar por um amor saudável fosse exigir demais.

Então, você chegou.
E tudo foi tão extraordinariamente simples,
que demorei a entender o que sentia.
O que você queria.
O que eu desejava.

Era tudo tão natural entre a gente,
que por um momento achei que fosse irreal.

A paixão sempre foi intensa,
mas nunca a ponto de nos fazer perder o juízo.
Nos amamos com sobriedade e doçura.
Nosso amor… é brega.

Gostamos de conversar por horas,
de escutar uma à outra num mundo que só quer falar.
Amamos ficar de pijama, assistindo séries com um balde de pipoca,
debatendo as nuances dos enredos e relacionando com a vida.

Você adora cozinhar receitas que nunca seguem medida.
Eu sou sua crítica oficial, mesmo que você diga, toda vez, que está delicioso.

Não saímos de casa sem um beijo, nem voltamos sem repetir o gesto.
Fazemos o mesmo ao dormir, ao acordar.
Você coloca a toalha nas minhas costas quando saio do banho.
Eu faço o café exatamente como você gosta.

Pequenos gestos que, para muitos, são banais,
mas para nós, são extraordinários.

Adoramos fazer tarefas simples juntas,
e também sabemos o valor do silêncio, da individualidade, da saudade boa.
Mesmo lendo livros diferentes antes de dormir,
seguimos de mãos dadas.
Até no trânsito, nos tocamos como quem diz:
“te amo, estou aqui com você.”

Mais um dia 27 chegou,
e, como sempre, nos abraçamos e perguntamos:
“Quer casar comigo?”
Mais um dia 27 em que sorrimos,
trocamos o “tic” das alianças,
e agradecemos ao universo por estarmos juntas.
Mais um dia 27 em que desejamos que venham muitos mais.

Nosso amor não precisa de altos e baixos para ser emocionante.
Não precisa de brigas para valorizar a paz.
Não precisa de extremos para encontrar equilíbrio.

Nosso amor é saudável,
o que pode soar brega aos ouvidos dos desavisados.

Mas se ser brega é a sentença do nosso amor…
então, que seja condenação perpétua.

Karina Zeferino

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