Não sinto saudade do que passou

Gosto de olhar para o meu passado e lembrar das histórias que vivi,
das fases boas e ruins por que passei,
das pessoas incríveis que conheci.

Dos lugares, das cores, dos sabores que experimentei
e até das barras que enfrentei nos momentos de dor.

Muita coisa foi boa.
Assim como o contrário também foi verdade.

Hoje, vejo tudo como aprendizado.
E, sinceramente, não sinto saudade de nenhuma fase que vivi.

Ouço muita gente repetir frases como
“bons tempos”,
“era feliz e não sabia”,
“queria voltar no tempo”.
Eu não.

Sinto gratidão pelo que vivi.
Mas saudade, não.

Primeiro, porque valorizo o tempo presente.
Segundo, porque sou muito mais feliz agora.
E ao olhar para trás, vejo quanto me perdi
e o quanto sofri para me reencontrar.

Na inocência da infância, busquei amor e aceitação
de formas que me levaram à submissão
e à distorção daquilo que eu realmente era.

A adolescência foi uma fase de inseguranças,
de esforço por pertencimento,
que me deixou como saldo
rejeições e solidão.

Na faculdade, odiei meu corpo
e acreditei que, por causa dele,
eu era menos capaz.

Na fase adulta, ainda procurava suprir as faltas que sentia,
achando que o problema era só meu.
E o que encontrei foram violências físicas,
abusos emocionais
na família, nos relacionamentos.

Como 99,9% das mulheres,
sofri com o machismo e o sexismo
de uma sociedade conservadora.

Por carência e dependência emocional,
demorei a me descobrir.
Demorei a perceber que muito do que eu era
foi construído a partir da dor, e não da essência.

Como posso ter saudade de épocas que me desconectaram de mim?
Que me machucaram enquanto eu vivia,
e depois machucaram de novo,
quando percebi o que realmente havia acontecido?

Foi só depois dos 30 que comecei a entender:
o problema nunca fui eu
era o contexto ao meu redor.

Busquei ajuda.
Fui atrás de autoconhecimento.
Resgatei memórias, descobri segredos,
comecei a cicatrizar feridas.

Comecei — porque tomar consciência, no início, dói ainda mais.
Mas com doses diárias de mim mesma,
fui entendendo que só eu sou responsável pelo meu caminho.

E então… escolhi.
Escolhi meu próprio caminhar.

Próxima dos 40, ainda carrego dores que precisam de cura.
Mas hoje já não preciso que gostem de mim para eu me sentir bem.
Apesar de, às vezes, me sentir sozinha,
estou em paz comigo.

Hoje decido onde piso,
com quem me conecto
e — principalmente — de quem me afasto.

Hoje ouço meu coração.
Consigo sentir minhas emoções
e entender meus sentimentos.

Hoje faço minhas escolhas
sabendo exatamente o porquê de cada uma.

Hoje sou feliz com a minha vida.

E por tudo isso…
não sinto saudade do que passou.

Karina Zeferino

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