Quem eu era e quem eu sou

Sempre me senti confortável jantando pão com o que tivesse na geladeira, e amava.
Hoje, como brócolis, rabanete, salada agridoce e até suco de tomate.
Não que eu tenha deixado de gostar de pão,
mas aprendi que meu corpo merece equilíbrio
e, surpreendentemente, salada agridoce e suco de tomate viraram meus queridinhos.

Quando estava na faculdade, acreditava que podia mudar o mundo.
Fazia planos grandiosos, sonhava em deixar uma marca nas pessoas,
convencer a todos de que a prevenção, através do exercício físico, era o melhor remédio.
Hoje, às vezes, a minha grande conquista do dia é escolher entre levantar para ir à academia
ou ficar mais trinta minutos abraçada com o travesseiro.

Já confiei demais na humanidade.
Acreditava que as pessoas não fariam o que eu não faria,
que a maldade era aquele 1% que deu errado.
Hoje, às vezes, acho que o ser humano inteiro deu errado 
e o 1% são os que resistem.
Mas esses quase sempre morrem esmagados pelas próprias lutas.

Na fase em que pensar na vida ainda era um luxo distante,
palavras como “hipocrisia”, “incongruência” e “incoerência”
pareciam só existir na literatura.
Hoje, vejo seus significados escancarados na vida real 
nos representantes do Estado,
nos vizinhos,
nos colegas,
nos amigos,
na família,
nos professores,
no gerente do banco…
E em mim, às vezes.

Cresci nos anos 90, bombardeada por comédias românticas que nos ensinaram tudo…
errado.
Filmes que travestiam submissão de amor,
glorificavam homens abusivos,
estimulavam rivalidades entre mulheres
e normalizavam violências contra nossos corpos, aparências, desejos e sonhos.
Tudo para que aprendêssemos a nos comportar 
e, principalmente, a não questionar.

Funcionou por um tempo.
Naquele tempo, homens abusaram de mim,
as regras sociais calaram minha criatividade,
o “tem que” apagou minha essência
e viver passou a doer.

Hoje, depois de algumas décadas,
carrego essas questões para a terapia.
Estudo sobre letramento social e racial,
me desconstruo um pouco a cada dia 
e ainda assim me pego, às vezes, reproduzindo falas machistas, racistas, capacitistas, sexistas…
Tudo isso ainda mora em mim.

Mas a diferença é que agora eu enxergo.
Agora eu escolho.
E estou cada vez mais próxima da essência de quem fui
antes da sociedade plantar crenças pesadas nos meus pés.

Um dia, sonhei com o mundo ideal.
Hoje, entendo que o ideal é tão subjetivo quanto o amor e a dor.

Tive um paladar infantil,
acreditei demais nas pessoas,
idealizei mundos,
me esqueci de mim.

Confesso:
a realidade é mais amarga.
Pés no chão endurecem os passos.
A verdade, às vezes, dói mais do que deveria.
E sim, tudo isso me torna mais só.

Mas…

não há nada melhor do que abrir os olhos
e enxergar as coisas como realmente são.

Viver a autenticidade de ser quem se é
vale mais do que qualquer doce ilusão.

Karina Zeferino

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