(por uma mulher que ama mulheres)
Tenho sentimentos ambíguos quanto a esse dia.
De um lado, compreendo sua importância.
Ainda vivemos em uma sociedade que tenta apagar a existência das mulheres que amam outras mulheres.
O preconceito não só existe, como é sustentado — por silêncios, piadas, estigmas e narrativas falsas. Por isso, ser visível é uma forma de resistência.
Mostrar que existimos, que amamos, que trabalhamos, cuidamos, dançamos, rimos, choramos, construímos famílias e comunidades como qualquer outra pessoa…
É essencial.
Ainda é.
Mas, ao mesmo tempo, me entristece que ainda precisemos de um dia para isso.
Sonho com o tempo em que as diferenças humanas sejam vistas com naturalidade — não como ameaças ou anomalias.
Um tempo em que simplesmente ser quem se é baste.
Sem explicações. Sem justificativas. Sem datas para reivindicar respeito.
Porque ainda hoje…
Há quem acredite que uma mulher só é mulher se performar feminilidade segundo padrões estéticos criados para agradar os homens.
Há quem ache que mulheres lésbicas odeiam homens, que são frustradas, mal-amadas ou que “não encontraram o homem certo”.
Há quem reduza o amor entre duas mulheres a fetiche, invisibilize seus corpos, questione sua sexualidade, e diga com todas as letras:
“Sem pênis não é sexo.”
Como se fosse o órgão que define a existência de intimidade.
Como se fosse o homem o centro de tudo.
Patriarcado, sim. E também lesbofobia.
Uma lesbofobia sutil, socialmente aceita, muitas vezes romantizada — mas ainda assim cruel.
Ela aparece nas piadas, nas perguntas invasivas, na falta de representação, na sexualização constante, na exclusão dos direitos, nos olhares atravessados ao andar de mãos dadas.
Aparece até nas palavras.
“Sapatão”, por exemplo, ainda é usada como ofensa — como se não carregar história, coragem e potência.
Mas carrega. E muito.
Porque amar outra mulher em um mundo feito para os homens ainda é um ato político.
E não, isso não torna o amor menos amor.
Muito pelo contrário.
Mulheres que amam mulheres não estão tentando chamar atenção.
Não estão contra ninguém.
Não estão confusas.
Estão inteiras.
Mulheres que amam mulheres existem.
E só querem o mesmo que todo mundo quer: viver com dignidade, respeito e liberdade.
Que a visibilidade continue sendo um caminho.
Mas que um dia, quem sabe, ela não precise mais ser luta.
E que seja só o que é:
Amor.
Karina Zeferino


