Sento-me em uma das muitas poltronas espalhadas pelo saguão. O chão reluz sob as malas apressadas. Ao meu redor, sons misturados: rodinhas que deslizam, avisos pelos alto-falantes, risos contidos, choros discretos, abraços demorados.
Enquanto espero meu voo, fico observando. O aeroporto tem esse poder de me colocar em estado de contemplação, como se o mundo todo coubesse ali, naquela constante dança entre chegadas e partidas.
Vejo famílias se reencontrando em lágrimas e sorrisos. Casais se despedindo com promessas. Crianças dormindo no colo dos pais, alheias ao vai e vem da vida que pulsa. Gente que chega, gente que parte. Gente que começa algo novo e gente que encerra ciclos. Gente que sonha, que corre, que se atrasa, que se despede sem saber se volta.
Às vezes, brinco de imaginar as histórias por trás de cada rosto que passa. Quem será aquela mulher de salto, tão concentrada no celular? Uma executiva prestes a apresentar um projeto importante ou alguém que acaba de pedir demissão e resolveu mudar de vida? E aquele senhor com chapéu de palha e olhar perdido no horizonte? Estaria indo visitar os netos? Ou voltando de enterrar um velho amor?
As malas me intrigam. O que carregam além de roupas? Esperanças? Medos? Despedidas? Cada bagagem parece conter um pedaço de mundo — e de mundo interno também.
Penso então nos que chegam: que sintam-se bem-vindos, que aproveitem a estadia, que encontrem o que vieram buscar. E nos que partem: que levem boas lembranças, que retornem se quiserem, mas que partam sem deixar de ser quem são.
Me comovem especialmente os que andam apressados demais. Fico com vontade de dizer: “Atenção! Pode ser que, na pressa, você esteja perdendo o que veio buscar.” E aos que embarcam desavisados, distraídos pelo celular ou pelas obrigações: “Cuidado, o mundo às vezes rouba nossos sonhos quando a gente não está olhando.”
No aeroporto tudo é metáfora. Nenhuma chegada é eterna, nem toda despedida é passageira. Há quem vá querendo ficar, há quem fique sem nunca mais ter voltado a si. Há quem chore ao ir, há quem chore ao voltar. E há quem apenas observe, como eu, tentando transformar em palavras o que não cabe numa passagem de embarque.
Cada rosto me atravessa como um pequeno conto não lido. Cada passo pode ser um ponto de virada. O amor e o medo caminham juntos nesses corredores, entre portões e filas, cafés e suspensões de voo.
Penso que talvez o aeroporto seja, no fundo, uma espécie de espelho: embarques e desembarques não acontecem só nas pistas — mas também dentro da gente. O tempo todo.
E ao ouvir o anúncio do meu voo, me levanto devagar. Carrego comigo a mala, os pensamentos, e uma certeza suave: é preciso aprender a chegar e partir de si mesma tantas vezes quantas forem necessárias.
Karina Zeferino


