Recebi um desafio: escrever sobre um professor inesquecível.
Por um momento, voltei à infância, lembrei da primeira professora, do primeiro livro, da primeira escola. Depois vieram tantos outros, responsáveis pela minha formação acadêmica do ensino fundamental até a pós-graduação. Mas quando foquei na palavra “inesquecível”, tive dificuldade em escolher um só.
Então me veio à mente uma cena específica. Eu estava no último ano do colegial, o atual ensino médio, quando uma professora de matemática, ao ver a turma não entender sua explicação, disse em alto e bom tom:
“Vocês são burros. Jamais vão passar no vestibular.”
Fiquei chocada.
Não cabia dentro dos meus 16 anos a figura de uma professora sendo tão cruel.
Em mim, a fala bateu como estímulo. Mas entendo hoje que as reações a esse tipo de violência variam conforme a história de cada um, o modo como sente, o contexto em que está.
Meses depois, quando fui aprovada em sexto lugar no vestibular, na minha primeira tentativa , lembrei dela.
Lembrei da cena com nitidez: a roupa que ela usava, o tom de voz, a entonação usada para desacreditar e desqualificar os alunos.
Traumas marcam mais do que elogios.
Tenho memórias boas com outros professores, claro. Mas foi dela que lembrei neste desafio.
E não foi à toa.
A neurociência explica que tendemos a lembrar mais de situações negativas do que positivas por questões evolutivas: lembrar do que dói ajuda a evitar novos perigos. Nosso cérebro prioriza memórias de humilhação ou ameaça como mecanismo de autoproteção.
Teoria à parte, o que eu sei é que em minha vida, situações ruins são lembradas com mais facilidade. Especialmente aquelas que vieram disfarçadas de “ensinamento”, como no caso dessa professora que, na aula seguinte, justificou seu ataque dizendo que queria apenas nos “despertar para a vida”.
Anos depois, tornei-me professora, em dose dupla.
Formada em Educação Física e Pedagogia, ministrei aulas para todas as idades: desde as turmas do ensino infantil até academias com cem pessoas dançando ao mesmo tempo. Realizei, de fato, meu sonho de infância: o mesmo que me fazia sentar meus ursos de pelúcia em fileiras, com um livro na mão, para “dar aula” para eles.
Com o tempo, descobri que ser professora vai além do conteúdo.
Vi alunos parados na porta, sem coragem de entrar na sala e fui buscá-los pela mão.
Vi outros no fundo da sala, mergulhados na solidão e os ajudei a encontrar pertencimento.
Um deles, anos depois, me confidenciou que naquele dia pensava em tirar a própria vida.
Com o tempo, aprendi a reconhecer semblantes pesados.
Vi tristeza em olhos cansados, vi doenças escondidas, vi dores silenciosas, e bastava um abraço ou um “conte comigo” para abrir espaço para o alívio.
Percebi que, muitas vezes, o que um aluno precisava não era uma resposta, mas uma escuta.
Desde o início da minha formação, desejei ser uma professora que fizesse diferença, não por grandes feitos, mas por pequenas palavras que tocassem muitos corações.
Hoje, minhas memórias inesquecíveis vêm dos sorrisos que vi surgir em rostos cansados.
Das lágrimas que aliviaram almas.
Dos agradecimentos sinceros ao final de uma aula, quando eu lia um poema e ouvia:
“Era isso que eu precisava ouvir.”
E dos abraços.
Ah, os abraços.
Aqueles silenciosos, que me renovavam também nos dias em que era eu quem estava cansada.
Existem muitas formas de ser inesquecível.
Espero ter marcado positivamente aqueles que cruzaram meu caminho na escola, na academia, na vida.
E mesmo que não lembrem de mim pelo nome, como eu não lembrei de todos os que me tocaram, ainda assim acredito: cumpri minha missão.
Porque, pelo caminho, alguns corações eu toquei.
Karina Zeferino


