Todo mundo tem suas manias, seus rituais, seus pequenos prazeres que fazem a vida ter gosto. Eu também tenho os meus. E por mais que o mundo me empurre para novos hábitos, regras e padrões, há coisas das quais simplesmente não abro mão.
Não abro mão de pão francês no café da manhã.
Sim, eu sei, há opções mais saudáveis, integrais, low carb, funcionais. Minha nutricionista é ótima e bem-intencionada, mas nenhuma explicação vence o cheiro do pão quentinho, estalando na casca enquanto a manteiga derrete como quem se entrega sem resistência.
Não abro mão de movimentar o corpo todos os dias.
Uma caminhada, uma dança, um alongamento simples. O que for possível. Mas também não abro mão de respeitar meu corpo nos dias em que ele só quer repouso. TPM, cólica, cansaço… São pausas necessárias, não derrotas.
Não abro mão da sobremesa, especialmente em restaurante novo.
Para mim, experimentar o doce é encerrar a refeição com um ponto de exclamação. E às vezes, mesmo sem restaurante, sem data especial, abro mão de qualquer regra só para satisfazer uma vontade de açúcar e afeto.
Não abro mão dos livros de papel. Do cheiro de página nova ou antiga, das anotações nas margens, do marcador que desliza como se contasse os dias junto comigo. Não abro mão de entrar em livrarias pequenas, nem de conversar com estranhos que, por alguns minutos, também moraram no mesmo romance que eu.
Não abro mão de uma alimentação equilibrada. Mas o meu equilíbrio é inteiro: tem frutas e verduras, sim, mas também tem bolo de cenoura com cobertura de chocolate, tem queijo, azeite, café com açúcar, vinho. Saúde e prazer não precisam brigar; na minha mesa, convivem.
Não abro mão de sentir frio na barriga.
Montanhas-russas, esportes radicais, mergulhos de cabeça naquilo que me apavora, mesmo tremendo, mesmo gritando. Há um tipo de coragem que só nasce depois do medo.
Não abro mão de aprender.
Mas não me limito a um tema só. O que me move é a curiosidade. Filosofia, psicologia, literatura, gastronomia, astrologia… Estudo o que me atravessa. E deixo de estudar também, quando a vida pede silêncio.
Não abro mão de escrever.
Mesmo que ninguém leia, mesmo que só sirva para organizar a confusão dentro de mim. Escrevo para não explodir. Para me ouvir. Para lembrar quem sou. Para transformar dor em linguagem.
E talvez, acima de tudo, eu não abra mão de ser contraditória.
De ter certezas que dançam, opiniões que mudam, planos que se refazem. De ser intensa nos erros, serena nas quedas, valente nos recomeços.
Não abro mão de ser inteira, mesmo quando estou em pedaços.
Porque no fundo, é disso que a vida é feita: de pequenas coisas das quais a gente se recusa a abrir mão.
E é nelas que mora a nossa verdade.
Karina Zeferino


