Junho. Festas. Arraiás. Milho.
Como eu gosto de tudo isso.
O cheiro que invade meu apartamento na capital transporta minhas lembranças para um lugar onde queria muito voltar:
A panela de pressão cozinhando a espiga,
o forno assando o bolo,
a cozinha que misturava o cheiro da pamonha e do curau,
e os pés descalços das crianças brincando na terra — que corriam para matar a sede no suco e se saciar na canjica.
Me espantava o quanto o mesmo milho podia se transformar.
Quando pequena, adorava estourar cada gomo do milho cozido na boca.
Assistia maravilhada a transformação do milho em pipoca na panela.
Ainda não entendia como aquilo tudo podia vir do mesmo lugar.
Minha avó, com seus cabelos brancos e um guardanapo no ombro, fazia malabarismos para que os quitutes chegassem inteiros até a noite — quando nos deliciaríamos nas comidas e dançaríamos até o dia clarear.
Bons tempos. Boas lembranças.
Queria ainda possuir a inocência que não distinguia os ingredientes,
a imaginação que fazia das espigas personagens,
a simplicidade que via na roupa rasgada o look da moda,
e a pureza que, num mesmo ritmo, dançava até o fôlego acabar.
Quando criança, tudo é aproveitado até o último minuto,
até acabar a energia,
até limpar o último farelo da forma.
Quando criança, o agora é vivido com a presença que merece,
na intensidade que tem direito —
e vale a pena simplesmente por existir.
Quando criança, a felicidade vem da simplicidade de ser.
Entra ano, sai ano, e muitas lembranças vão ficando pelo caminho.
Mas essa permanece.
Junho tem cheiro e sabor de milho.
E milho… tem cheiro e sabor de saudade.
Karina Zeferino


