👑 O “tratamento de princesa” e as armadilhas escondidas por trás do romantismo moderno

Nas redes sociais, especialmente entre jovens da Geração Z, uma tendência tem ganhado espaço e gerado debates intensos: o chamado “tratamento de princesa”. A hashtag #princesstreatment já acumula mais de 130 mil postagens no TikTok e Instagram, acompanhadas de vídeos em tons pastéis, legendas como “me trate como a princesa que sou” e cenas de mimos cotidianos: flores constantes, presentes simbólicos, mensagens carinhosas, cafés na cama e até massagens nos pés.

Inspirado por estéticas como a das séries Bridgerton e A Idade Dourada, esse fenômeno resgata gestos românticos à moda antiga e cria um imaginário afetivo baseado em delicadeza, gentileza e cuidado. À primeira vista, parece apenas uma ode ao carinho, mas, por trás das flores e jantares surpresa, há uma série de contradições emocionais, simbólicas e sociais que merecem atenção.

Desejo de afeto ou modelo idealizado?

Parte do apelo do “tratamento de princesa” reside em algo legítimo: o desejo de ser cuidada, valorizada, notada, em um tempo em que os vínculos amorosos se tornaram muitas vezes líquidos, rápidos ou utilitários. Para muitas mulheres, esse imaginário não representa submissão, mas sim uma recusa às relações frias, indiferentes ou superficiais.

No entanto, o problema começa quando esse desejo se transforma em uma expectativa rígida, baseada em gestos coreografados. Nesse modelo, os homens são colocados como provedores de afeto performático, e as mulheres, como receptoras passivas, sempre doces, delicadas, “femininas o suficiente” para serem escolhidas.

A consequência é uma espécie de romance encenado, onde a espontaneidade cede lugar à obrigação. Relações assim deixam de ser espaço de encontro e passam a funcionar com base em testes, recompensas e cobranças sutis.

A psicologia por trás do desejo

Segundo a psicologia, o fascínio por esse tipo de cuidado muitas vezes revela tentativas inconscientes de reparar feridas emocionais antigas, especialmente aquelas relacionadas à negligência afetiva ou à invisibilidade vivida em outros vínculos. Ser tratada como uma “princesa” pode, nesse sentido, simbolizar uma forma de compensação emocional.

Mas como toda reparação baseada em algo externo, ela se torna frágil. Afinal, quando a autoestima depende exclusivamente da ação do outro, a mulher fica vulnerável. Se o gesto não vem, instala-se a sensação de desamor e, com ela, um ciclo de dúvida, insegurança e autodepreciação.

Além disso, o modelo estimula uma lógica relacional performática: em vez de criar vínculos verdadeiros, baseados em escuta, presença e vulnerabilidade mútua, instala-se uma relação de expectativa e julgamento. A conexão se torna avaliação, e não encontro.

Feminismo disfarçado ou romantismo disfarçado?

Um dos principais pontos de crítica ao “tratamento de princesa” vem justamente do feminismo contemporâneo, especialmente da chamada quarta onda, movimento fortemente presente entre a própria Geração Z. Para muitas autoras e estudiosas, essa estética romântica, embora pareça empoderadora, na verdade reforça papéis de gênero tradicionais.

A mulher ideal, nesse contexto, é bela, frágil, delicada e recompensada por manter esse comportamento. Já o homem ideal é forte, generoso, provedor. A isso se dá o nome de patriarcado benevolente: uma forma sutil de dominação baseada na recompensa, não no controle. A mulher é “valorizada” desde que aceite o papel que lhe é oferecido.

E é aí que nasce uma ambivalência: as mesmas jovens que desejam ser tratadas como princesas também querem liberdade, autonomia, potência. Essa contradição gera tensão psicológica e, muitas vezes, culpa silenciosa como se fosse errado desejar cuidado e romance num mundo que exige força e independência o tempo todo.

Ressignificar é possível?

É importante dizer: o problema não está no desejo por carinho, romance ou cuidado. Esses são desejos legítimos e humanos. O que precisa ser revisto é a cristalização de um único modelo de afeto, em que o valor da mulher depende de ser tratada (e muitas vezes exibida) de uma determinada forma.

Além disso, ao atrelar o cuidado a performances de luxo ou gestos “instagramáveis”, o risco é tornar o amor um produto, algo que parece mais sobre aparência do que sobre intimidade.

Do ponto de vista psicológico e social, alguns dos riscos mais comuns dessa tendência são:

  • Reforço de inseguranças: mulheres que não se encaixam nesse padrão podem sentir-se menos dignas de amor.
  • Dificuldade em criar vínculos reais: a expectativa performática atrapalha a empatia e a escuta.
  • Confusão identitária: a tensão entre desejar cuidado e desejar autonomia pode causar conflitos internos.
  • Validação condicional: o gesto romântico vira métrica de valor pessoal, e não expressão de afeto genuíno.

E o que fazer, então?

A psicologia pode, e deve, ajudar a criar espaços de escuta, reflexão e ressignificação desse imaginário. Não se trata de ridicularizar o desejo por cuidado, mas de compreender a complexidade que ele carrega.

O “tratamento de princesa” pode ser transformado em algo mais simbólico: não como um padrão romântico ideal, mas como uma lembrança de que todas as pessoas merecem ser tratadas com afeto, presença, respeito e atenção sem jogos, sem performances, sem obrigações.

Porque vínculos saudáveis não são construídos em castelos de idealização, mas em terrenos reais, onde duas pessoas se encontram com tudo o que são inteiras, imperfeitas e verdadeiras.

📚 Bibliografia e referências utilizadas como base

Psicologia e estudos de relacionamento

  1. Solomon, Alexandra.
    • Psicóloga clínica, professora na Northwestern University (EUA) e autora de Loving Bravely e Taking Sexy Back.
    • Trabalha com temas de amor, vínculo e autoconhecimento emocional.
    • Trechos de entrevistas citados em:
      • Vox Media: “Who wants to be treated like a princess?”
  2. Vanderbilt, Rachel.
    • Pesquisadora de psicologia dos relacionamentos e comunicação interpessoal.
    • Estuda impacto de expectativas e regras sociais nos relacionamentos românticos.
    • Referida em:
      • Vox Media: “Who wants to be treated like a princess?”
  3. Wolf, Naomi.
    • Autora do clássico feminista The Beauty Myth (1991), onde discute como padrões estéticos funcionam como formas sutis de opressão feminina.
    • Livro: The Beauty Myth: How Images of Beauty Are Used Against Women. Harper Perennial.
  4. Teoria do Patriarcado Benevolente
    • Conceito discutido por diversos autores feministas (ex.: Glick & Fiske, 2001) no contexto da ambivalência sexista:
      • Glick, P. & Fiske, S. T. (2001). An ambivalent alliance: Hostile and benevolent sexism as complementary justifications for gender inequality. American Psychologist, 56(2), 109–118.
  5. Trauma-Informed Feminist Therapy
    • Abordagem que relaciona socialização de gênero com traumas institucionais e subjetivos.
    • Referência introdutória:
      • Brown, Laura S. (2008). Cultural Competence in Trauma Therapy: Beyond the Flashback. American Psychological Association.

Artigos e reportagens utilizados como base

  1. Folha de S.Paulo / BBC Brasil
    • Título: O que é o controverso tratamento de princesa e por que a Geração Z é obcecada por ele
    • Publicado em 22/07/2025
    • Folha Equilíbrio 
  2. Vox Media
    • Título: Who wants to be treated like a princess?
    • Publicado em 03/07/2023
    • Link: Vox Culture
  3. The Gazelle (NYU Abu Dhabi)
    • Título: The Problem with the Princess Treatment Discourse
    • Link: TheGazelle.org
  4. ResearchGate
    • Artigo: Feminism through the Lens of the Gen Z
    • Análise das contradições entre discurso feminista e práticas culturais contemporâneas.
    • Link: ResearchGate – Feminism & Gen Z

Karina Zeferino

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