Num ímpeto, já passamos da metade do ano.
Janeiro piscou, fevereiro correu, março escorregou entre feriados e promessas.
Agora é agosto. O mês dos ventos.
E com ele, sopra de leve (ou com força) a pergunta:
como temos vivido o tempo?
Metas ficaram na virada do ano, escritas em letras confiantes ou rabiscadas com medo.
Algumas nem chegaram a sair do papel.
Outras foram engolidas pela rotina, pela urgência do que não espera,
pela vida que atropela listas com boletos, diagnósticos, perdas, amores e imprevistos.
Mas e nós?
Estamos apenas passando o tempo
ou o tempo tem passado por nós?
Tem gente que vive esperando sexta.
Tem gente que vive fugindo do domingo.
Tem gente que vive a vida como tarefa,
outros, como dívida.
Alguns colecionam conquistas, outros, faltas.
Mas será que alguém tem conseguido viver o agora?
Será que estamos medindo demais o tempo com relógios e de menos com presença?
Será que temos confundido urgência com importância, movimento com direção?
Agosto chegou.
E se ele for um lembrete?
De que o ano não acabou, mas a vida também não espera.
De que o tempo não é só o que corre no calendário,
mas aquilo que escorre pelas frestas do que não foi dito, vivido, sentido.
Não há respostas prontas.
Só esse convite silencioso:
e se você escutasse o tempo dentro de você?
Talvez ele não esteja pedindo mais produtividade.
Talvez ele esteja implorando por pausa.
Ou presença.
Ou coragem.
Ou um recomeço.
Ou somente escuta, escuta de si.
Ainda há tempo.
Mas o tempo — esse — não gosta de ser ignorado.
Karina Zeferino


