Nos ensinaram a desejar com os olhos dos outros.
A desejar aquilo que era permitido.
A desejar o que era esperado de nós.
Mas ser lésbica é inverter o espelho.
É desejar com os próprios olhos.
É olhar para o corpo de outra mulher não como competição, nem comparação,
mas como encantamento.
E mais: é olhar para o próprio corpo e, pela primeira vez, habitá-lo.
A psicóloga Valeska Zanello fala da forma como a cultura molda o corpo feminino para servir ao olhar masculino — um corpo construído para o desejo do outro, não para o desejo de si.
No amor entre mulheres, essa lógica se rompe.
O corpo deixa de ser vitrine e volta a ser casa.
Durante anos, meu corpo era um lugar estranho para mim. Como se eu morasse em uma casa alugada. Só quando comecei a me relacionar com uma mulher, algo mudou. Me encontrei em mim, me reconectei com uma parte que nunca soube que existia, que transformou meu mundo e me fez morada em mim.
A sexualidade lésbica não é apenas um recorte do desejo —
é uma outra forma de habitar o mundo.
É pele que reconhece pele.
É desejo que não pede permissão.
É toque que é afeto, e não domínio.
É liberdade que se constrói a duas.
Mas também é medo.
É vergonha aprendida.
É culpa herdada.
Porque nos disseram que nosso desejo era “errado”, “sujo”, “imoral”, “pornográfico”.
Mas tudo isso só mostra como a sociedade teme o prazer que escapa ao controle.
Porque quando duas mulheres se amam, não há centro.
Não há superior.
Não há lógica fálica.
Só há presença.
E presença assusta quem só aprendeu a dominar.
Nosso desejo é gesto político.
Nosso corpo é território livre.
Nosso prazer é linguagem.
E nosso amor, é como um Jazz que não precisa de passos fixos.
Karina Zeferino
Mês da Visibilidade Lésbica


