Quem caminha olha para a bicicleta
e pensa: ali deve ser mais leve.
Quem pedala observa o ônibus
e imagina que poderia estar fazendo menos esforço.
Quem vai de ônibus deseja o carro,
o ar-condicionado, o controle, a pressa que parece vitória.
Quem dirige olha para o céu
e sonha com altitude,
como se voar fosse escapar de tudo.
E aquele que voa descansando seu corpo percebe
que a solidão no seu corpo rima com dor
e que tudo o que deseja é estar em casa com quem ama.
Ninguém vê o peso do outro trajeto.
Ninguém sente o cansaço alheio,
o custo invisível,
o medo que acompanha cada velocidade.
Cada um carrega seu próprio atraso,
seu próprio fôlego curto,
sua própria urgência de chegar
sem saber exatamente… aonde.
A vida não é sobre o meio de transporte,
mas sobre a distância interna
entre o que somos
e o que acreditamos que falta.
Talvez a paz não esteja em trocar de lugar,
mas em perceber
que todo caminho tem esforço
e toda chegada é provisória.
KARINA ZEFERINO


