Quem é você?

Foi nessa pergunta que travei tentando uma vaga na pós-graduação oferecida pela universidade que sempre sonhei estudar. Fiquei olhando para o papel que me retribuía com linhas em branco por um tempo que não soube estimar. Me achava preparada para responder sobre projetos futuros, propósito de vida ou mesmo onde me via daqui a dez anos, mas quem sou eu? Complexo. Sou tantas em uma que é difícil me definir em alguns caracteres ou poucas linhas. Sou filha. Filha única do Marlei e da Elisabete, dois trabalhadores que fizeram a vida no interior de São Paulo e me criaram com a possibilidade de eu vir a ser a primeira da família a ter um diploma universitário. Sou mulher. Gosto de ser mulher. Ocasionalmente passo um tempo planejando a roupa que vou usar, a bolsa que vai combinar, passando maquiagem, escolhendo um sapato de salto e até vou ao cabelereiro. Entretanto, na maioria dos dias gosto de roupas confortáveis, tênis no pé, mochila nas costas e com o cabelo bagunçado pelo capacete. E não sou menos mulher por isso. Aliás, me sinto ainda melhor quando com minha scooter, ando no corredor entre os carros junto a inúmeros motoboys e chego mais rápido ao trabalho. Sou quase uma Psicóloga. No momento em que escrevo este texto curso o décimo semestre de psicologia desde já me preparando para ser neuropsicóloga. Mas antes, cursei pedagogia e dei aulas para o ensino infantil de uma respeitada escola quando morava em Serra Negra. Era gratificante ensinar algo aos pequenos que mal sabiam andar. Mais gratificante ainda foi vê-los crescer de longe e perceber que lembravam de mim como alguém que marcou a vida deles. E ainda antes, minha primeira formação foi Educação Física. Quatro anos viajando 80 quilômetros para chegar à faculdade após trabalhar o dia todo. Me recordo de precisar fazer uma escolha todas as tardes: tomar banho ou me alimentar? Os dois não eram possíveis ser feitos nos quinze minutos de intervalo entre o trabalho e pegar a condução. Na maioria dos dias eu escolhia pela comida já que não tinha dinheiro para o lanche, mas as vezes o banho era bastante necessário e levava um pão para jantar. No último ano quando além de tudo isso ainda dava conta de realizar os estágios, ao chegar em casa após a meia noite, passava a madrugada escrevendo o TCC e hoje não me recordo como conseguia acordar cedo no outro dia e começar novamente a rotina sem folga semanal. Acredito que era a energia da juventude que tudo pode e tudo consegue. Sou uma pessoa introvertida que adora se comunicar. Sei que parece contraditório, mas eu explico; não gosto de iniciar uma conversa num ambiente que não conheço, porém adoro rir e trocar ideias com pessoas amigas. Sou uma pessoa que valoriza a cultura. Amo assistir peças de teatro, respeito o cinema, principalmente o brasileiro, estou sempre por dentro de exposições, mostras, museus e afim, além de frequentemente assistir espetáculos musicais, de música clássica a mpb. E não posso esquecer que sou apaixonada pela literatura. Os livros têm sido meus companheiros desde muito novinha, influenciaram meus sonhos e são responsáveis pela minha imaginação, através deles já vivi várias vidas dentro da minha vida. Sou mãe de pet. Decidi não ser mãe quando descobri uma falência ovariana, fui obrigada pela vida a pensar no assunto um pouco antes da maioria das mulheres e por razões de ordem interna fiz essa escolha, porém nunca fui contra ser mãe de maneira não biológica, contudo, hoje, amo a companhia do meu cachorro e sem comparar a maternidade, cuido e me preocupo com ele da melhor maneira que posso e sei que o trato muito bem. Na infância já tive gato, na adolescência porquinho da índia e na vida adulta um hamster, adoro animais. Sou esposa. Estou no segundo casamento, este com uma mulher incrível que me mostrou o significado de relacionamento saudável, companheirismo, reciprocidade, paz, além de tantas outras coisas. Me sinto feliz todos os dias que acordo e vou dormir ao lado dela. Sou amiga. Embora na minha trajetória não teham passados numerosos amigos, tive e mantenho boas relações de todos os lugares que passei, seja trabalhando, estudando ou visitando, os guardo em um lugar precioso no meu coração. Alguns amigos foram mais significativos, para estes pode-se passar o tempo que for, quando nos encontramos a sensação que tenho é que conversamos ontem mesmo. Sou um ser humano de bom coração, sigo os princípios e valores que acredito serem adequados para mim dentro da coletividade, faço minha parte para ajudar o meio ambiente, me solidarizo com pessoas em situação de rua, fico emocionada com histórias de superação e colaboro com o outro como posso. Meu maior sonho é que a desigualdade social não exista, ou pelo menos não em grandes proporções. Dela se deriva muito do mal que há no mundo. Sou Paulista. Nascida e criada no interior de São Paulo numa cidade que não chegava a trinta mil habitantes, em que a população se conhecia pelo nome e em geral gostava dessa proximidade, apesar disso, sempre esperei pela oportunidade de mudar para a capital, a qual fiz com passagem só de ida há oito anos. Sem dúvidas, uma das melhores decisões que tomei na vida. Sou fascinada por São Paulo. Seu ritmo frenético combina com meu movimento de conhecer a vida, lugares e sabores; e sua diversidade propicia que eu expresse todas as Karinas que quero ser. Aos 40 anos já vivi algumas versões de mim e acredito que tenha ainda mais para viver. Gosto da possibilidade de mudar, seja de roupa, de gosto, profissão ou amor. Nunca gostei que tentassem me definir, pois isso me colocaria em um lugar rígido, porque se têm uma coisa da qual prezo, é pela evolução, e não há evolução sem transformação. Ah, mais uma coisa, sou questionadora. Nem sempre fui, mas há muito tempo já não me conformo em aceitar sem entender, questiono a vida, as regras, as pessoas e a mim mesma. Sempre. Porém sou aberta ao diálogo, a aprender coisas novas e me permito mudar de ideia. Sou inflexível somente nos meus valores, esses não abandono. Será que a sociedade aceita uma mulher que não gosta de se definir, adora mudar e é questionadora? Posso responder assim em uma ficha de entrevista?

Karina Zeferino

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