Hoje fui almoçar em um restaurante luxuoso em São Paulo de uma chef que admiro e gosto demais da culinária. Quando o garçom veio tirar o pedido, me peguei explicando para ele que não pediria a entrada porque estava planejando comer a sobremesa e não iria aguentar comer tudo. Assim que ele virou as costas me senti uma idiota, para ele não importava o que eu iria comer, só exercia seu trabalho me oferecendo uma entrada e eu tinha o direito de não aceitar, mas não o fiz diretamente.
Ontem quando saí passear com meu cachorro expliquei para uma desconhecida o porquê de estarmos na rua naquele momento, e ela só tinha me perguntado se o cachorro, que é muito peludo, sente calor.
Venho trabalhando esse comportamento na terapia não é de hoje, entretanto ainda me pego frequentemente esclarecendo minhas decisões para quem não carece; porém, conheço outras mulheres que fazem o mesmo, mas nenhum homem.
A tendência de mulheres explicarem mais suas decisões do que os homens, pode ser entendida a partir de diversos fatores sociais, culturais e psicológicos. Desde cedo, meninas e meninos são socializados de forma diferente. As meninas geralmente são incentivadas a serem mais comunicativas, empáticas e a buscar validação social. Isso pode levar as mulheres a se sentirem mais inclinadas a justificar suas decisões para garantir que sejam compreendidas ou aceitas. Há uma expectativa social implícita de que mulheres precisam ser mais agradáveis e justificarem suas escolhas para evitar julgamentos. Em contrapartida, os homens frequentemente são socializados para serem assertivos e diretos, o que pode reduzir a necessidade percebida de explicações.
Mulheres, devido à forma como a sociedade frequentemente as coloca em papéis de mediadoras, podem se sentir mais motivadas a explicar suas decisões como uma forma de evitar conflitos ou manter harmonia nas interações. Em contextos em que as mulheres historicamente tiveram menos poder ou autoridade, explicar decisões pode ter sido uma estratégia para legitimar suas escolhas e evitar questionamentos. Mesmo em contextos modernos, esses padrões podem persistir devido a normas culturais internalizadas.
Estudos sobre comunicação e igualdade de gênero fornecem insights relevantes. Por exemplo, o documento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2018)[1] “10 Princípios de Comunicação para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres” destaca a importância de reconhecer as diferenças na situação de mulheres e homens, bem como a discriminação de gênero na lei e na prática. Essas diferenças podem influenciar comportamentos comunicativos distintos entre os gêneros.
Além disso, o artigo “Comunicação na Perspectiva da Igualdade de Gênero: Apontamentos para o Debate sobre Marco Regulatório” discute como a mídia e a comunicação podem perpetuar estereótipos de gênero, afetando a forma como homens e mulheres expressam suas opiniões e justificam suas decisões (Lahni e Auad, 2011)[2].
Embora esses estudos não abordem diretamente a questão das explicações de decisões, eles fornecem um contexto sobre como as normas de gênero podem influenciar comportamentos comunicativos diferenciados entre homens e mulheres.
Admito que, mesmo abordando questões de gênero na terapia, ainda encontro dificuldades para transformar crenças profundamente enraizadas desde a infância, como a necessidade de agradar, ser aceita, validada e amada. Cada pequeno gesto contrário que realizo se assemelha ao esforço de cruzar a linha de chegada de uma maratona. No entanto, reconheço que estou trilhando meu caminho, assim como muitas outras mulheres que já perceberam que esse padrão apenas as mantém aprisionadas no lugar que a sociedade espera que ocupem.
Reconheço que as gerações mais jovens têm um pouco mais de facilidade em lidar com essas questões, embora enfrentem outros desafios que as afligem. Acredito que, quanto mais dialogarmos sobre esses temas e nos apoiarmos mutuamente, mais seremos capazes de enfrentar nossos próprios monstros. Sonho com o dia em que possamos nos concentrar apenas nas demandas externas deste mundo, que constantemente nos apresenta novos obstáculos. Nesse dia, nossos corações estarão em harmonia e em pleno respeito à nossa essência.
Karina Zeferino
[1] https://portal.fiocruz.br/sites/portal.fiocruz.br/files/documentos/onu_igualdade_de_generos-2019.pdf?utm_source=chatgpt.com
[2] https://sxpolitics.org/wp-content/uploads/sites/2/2012/03/lahni_auad_marco_regulatorio_genero.pdf?utm_source=chatgpt.com


