O Envelhecimento de minha mãe 

Descubro meu envelhecimento através dos olhos de minha mãe. Aqueles olhos antes irradiando vida mesmo através das dificuldades, hoje aparentam cansaço, encontram-se murchos, irradiam vivência.

Encontro meus olhos no espelho e por um momento percorro quarenta anos que considero bem vividos. Não somente de coisas boas, mas de aprendizados e crescimento em que chego a não me reconhecer ao olhar para trás.

Constato rugas quando minha mãe sorri. Marcas que não estavam ali anteriormente e que não percebi serem construídas. De repente sinais rompem a pele lisa e rosada que frequentemente eu elogiava e reclamava por não ter herdado. Observo o sorriso ficando mais breve, a gargalhada menos aberta e os dentes não tão arreganhados.

Corro para encontrar os motivos que me fazem sorrir e me agarro neles para não deixar as atuais intempéries do mundo marcarem ainda mais meu sorriso consumido por tanta mentira e maldade alheia.

Observo de longe minha mãe. O caminhar mais lento, a atenção ao colocar cada pé no chão, a dificuldade em sentar, o esforço em levantar e o avanço da dor que vai subindo ou descendo pela coluna dependendo do dia. O mesmo corpo que corria de mim quando criança e atrás de mim na adolescência.

Olho para baixo e vejo meus pés calejados de caminhos tortuosos e por vezes áspero ou pontiagudo e me atento que não sei ao certo quais foram os caminhos que minha mãe teve que desbravar para que eu trilhasse os meus com mais segurança. Ou menos insegurança. Me pergunto quantos tombos ela tomou para que hoje tenha tanto receio em seguir sem a certeza de que está pisando no lugar certo.

Noto em minha mãe cabelos brancos encobertos por tinta fresca tentando afastar a discriminação baseada na perda de vitalidade e produtividade que os cabelos brancos revelam. Estereótipo do qual as mulheres são mais afetadas e julgadas.

Procuro meus fios brancos e os encontro igualmente encobertos, mas por uma tendência de luzes que nada mais são do que um disfarce do etarismo que assola toda e qualquer mulher seja qual for a idade. Reflito se realmente gosto da cor, se o loiro é mais aceito socialmente ou se escondo de mim mesma a naturalidade da vida que chega, ou se vai; e rapidamente chego à conclusão de que não tenho essa resposta.

Percebo a voz de minha mãe embargada por calos. Calos não por gritar seus desejos ou falar sobre suas ambições. Calos por engolir palpites desnecessários, opiniões não solicitadas e sentenças condenatórias de uma decisão social arbitrária. 

Minha voz ao contrário já é rouca de tanto esbravejar e defender direitos adquiridos para que as mulheres não sejam novamente enclausuradas em seus próprios úteros. Ou por causa deles.

Reparo nas mãos franzidas de minha mãe que mostram uma vida de trabalho e luta constante para manter sua dignidade, integridade e respeitabilidade; características tantas vezes colocadas em cheque por ser uma mulher divorciada criando sozinha uma filha adolescente num mundo que só dá pertencimento a quem a qualquer custo engole perpetuar a família tradicional e conservadora.

Entendo que para eu transgredir tantas regras e não ser queimada na fogueira, inúmeras mulheres o foram, e minha mãe suportou ser vista como a “ovelha negra da família” pelo fato de se divorciar. O que a salvou. E me salvou. Nesse momento considero que o envelhecimento de sua pele mostra que hoje ela pode descansar, suas mãos foram fortes e abriram o caminho para que eu pudesse passar ilesa pelo pasto de falsas ovelhas brancas.

O envelhecimento de minha mãe me mostra com lentes de aumento que não sou mais aquela menina que tinha a vida toda pela frente. Acende um farol alto direto em minha cegueira perante a finitude da vida. Fala em auto e bom som que apesar da sociedade ensinar que as mães são eternas heroínas, elas também morrem.

O envelhecimento de minha mãe me cerca de medo, mas me traz presença. Medo de inverter os papéis no cuidado, medo de não dar conta do recado, medo por não saber o que será enfrentado. Ao mesmo tempo me dá vontade de estar presente, acompanhar cada mudança em seu mundo e guardar cada memória em um potinho dentro do coração.

O envelhecimento de minha mãe me ensina a ter paciência para escutar falas vagarosas, esperar tempos diferente do meu e ouvir conselhos de quem já viveu mais.

O envelhecimento de minha mãe revela minhas rugas, meu caminhar cansado, meus cabelos brancos e que talvez eu esteja agora mais próxima do fim do que do início, e isso me dá uma imensa vontade de fazer essa vida que me resta, valer a pena.

Karina Zeferino

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