Você não tem medo?

Essa é a pergunta que mais ouço após ter comprado uma moto scooter 125cl para me deslocar em São Paulo. Desde que tirei carta adoro pilotar moto. É prática, acelera meus afazeres, é econômica no combustível e cabe em qualquer cantinho para estacionar. No entanto, morava em Serra Negra, uma cidade do interior de São Paulo na época com menos de trinta mil habitantes. Ia para cima e para baixo, porque haja morros naquela cidade, durante o dia ou a noite, na chuva ou no sol e até mesmo na madrugada quando a cidade quase toda dormia. Foram alguns anos em que aquela moto me trouxe independência e autonomia.

As únicas dificuldades que eu passava era enfrentar as chuvas, e é para isso que servem as capas, e quando o pneu furava. Esse não tinha jeito, precisava de ajuda e sempre obtive. Uma vez no meio da estrada um outro motociclista parou e me ajudou espontaneamente. Os semelhantes sempre se ajudam.

Já escutei muitas vezes que sou louca simplesmente por trocar a paz e a segurança do interior pela agitação e perigo de São Paulo, mas agora me perguntam se eu não tenho medo de ser uma motociclista mulher nessa selva de pedra que a cada dia está mais recheada de veículos lutando para alcançar as mesmas avenidas a qualquer hora do dia ou da noite.

A resposta é sim. Eu tenho medo.

Tenho medo porque estou de moto e meu corpo fica mais vulnerável em um possível acidente do que estaria dentro de um carro. Tenho medo por pilotar uma moto que é mais fácil de ser furtada parada ou em movimento. Tenho medo porque a maioria dos colegas motociclistas são homens e por mais trabalhadores que sejam pode haver um oportunista esperando para dar o bote. Carrego tantos medos, que se torna desafiador classificar todos.

Entretanto, meu medo ao pilotar uma moto em São Paulo não é diferente de quando dirijo um carro ou ando a pé. Meu medo não advém do externo, mas do que sou e gosto de ser. Mulher. Ser mulher é viver em constante atenção. Na calçada disfarçadamente olhamos para trás a fim de assegurar que não estamos sendo seguidas e muitas vezes andamos pela rua mesmo. No transporte público, quando não há assento disponível, buscamos encostar nas laterais ou nos aproximamos de mulheres. Dirigindo nos afogamos no ar-condicionado para manter as janelas fechadas sem esquecer de travar as portas e se possível pagar a proteção extra das películas de segurança para os vidros. No trabalho tomamos o cuidado de pensar na roupa, na postura, no tom de voz, nas piadas e principalmente nos sorrisos, vai que o sorriso aberto seja a autorização que nunca demos, mas que o outro com toda a certeza entendeu? Seja na escola, na faculdade, na balada, na padaria ou no teatro, mulheres tem estratégias de sobrevivência e conseguem num olhar se comunicar com outra mulher em perigo. 

Mulheres têm medo desde sempre somente por ser mulher.

Medo de serem atacadas, invadidas, subjugadas, desconsideradas e principalmente que suas palavras e desejos não sejam respeitados. Mulheres sabem por experiências próprias e pelas vivências de outras mulheres que a qualquer momento e por qualquer pessoa podem passar por uma situação de violência, seja física, emocional ou moral, e por muitas vezes sexual. Já se sabe que a vulnerabilidade não está no gênero, mas foi construída socialmente, tem anos de história e mulheres lutam diariamente para se defender e mudar esse contexto. Muito já foi conquistado, mas muito há para conquistar, assim como manter. 

É interessante perceber a cada ano, mês e dia que se passa, mais mulheres se aventurando nesse dia a dia, motorizadas, pilotando, seja por lazer, trabalho ou simples vontade.

Tenho medo por ser mulher nesse contexto social. Não por pilotar uma moto.

Viver é um risco, sendo assim, vou corrê-lo aproveitando cada pedacinho da minha vida. Seja a pé, de carro ou de transporte público. 

E hoje, será sobre uma moto.

Karina Zeferino

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