Nem eu!
Atividade física para o corpo, mindfulness para a mente. Estudo para se atualizar, trabalho para se realizar, financeiro para se estabilizar. Tarefas da casa, funções de esposa, responsabilidade de mãe, cuidados com a mãe. Pausa para as amigas. Alimento saudável para espantar a doença, água para hidratar as células, cultura para alimentar a alma. Lazer.
E ainda você, mulher.
Sem que utopicamente um superpoder caia do céu agora e te transforme, você acha mesmo que dará conta de tudo? E fazer bem tudo? Mesmo assim, aí dentro há uma voz que continua afirmando que você teria que ser capaz de realizar e te culpa por não conseguir, não é?
Já entendemos que o sistema é patriarcal, que a sociedade é misógina e que distorceram o significado do feminismo para nos deixar ainda mais longe da igualdade. Percebemos que quanto mais a mulher deseja, mais acumula funções, e vivemos diariamente sentindo na pele como o mundo é injusto. Para mulheres. Para mulheres pretas. Pretas e periféricas. Periféricas e pobre. Pobre e gorda. Gorda e com deficiência…
São tantas camadas.
Ainda assim a mulher quer desempenhar todos os papéis com maestria, equilibrar todos os pratinhos e não deixar a peteca cair. E quando menos espera, é ela quem cai. Cai doente, com ansiedade, depressão, com dor. Dor crônica. Ainda assim se levanta antes do relógio despertar porque com esses minutos poderá lavar aquela louça que ficou suja de ontem, quando se sentou para descansar só um pouquinho, e acordou hoje.
A culpa, assim como o medo, são mecanismos de controle da mulher e principalmente dos seus corpos. Dos seus desejos. Ouvindo a voz que vem da ancestralidade e tentando ainda dar check na imensa lista que organizamos para não esquecer de nada, continuamos colaborando com o sistema. Avançamos nas teorias e perecemos antes do pôr do sol. Não assistimos ao ápice da vida porque estamos cansadas e as costas doem.
As mulheres que brigaram para serem aceitas na universidade, pudessem votar, ou ter direito ao CPF para deixarem de ser consideradas incapazes, esse último há pouco mais de 60 anos, devem estar muito bravas conosco. Mesmo os direitos das mulheres correndo riscos, como sempre, não há na história outro tempo em que pudéssemos escolher fazer tantas coisas, e nós, escolhemos ser boas o suficiente. Em todas as áreas da vida.
Continuamos presas aos ideais de beleza, padrões estéticos, atacando quem se rebela, criticando o diferente e julgando decisões. Coloque aqui o motivo que for, mulheres sempre foram e são julgadas. Um dia por quererem tomar pílulas, em seguida por se divorciar, posteriormente por amarem outras mulheres, depois por decidirem não ter filhos. Qual será a próxima? Porque sim, terá.
Sofremos tanto por ver mulheres julgando outras mulheres quando nós mesmas nos julgamos diariamente por não fazermos tudo e tudo muito bem. Constatamos que é utopia e mesmo assim corremos atrás desse ideal 24 horas por dia, 7 dias na semana e quando chega dezembro, ficamos frustradas por termos abandonado as resoluções de ano novo em fevereiro.
Que tal assumirmos que não somos boas o suficiente? Que não dá para ser. A sociedade já é crítica, não será mais por esse motivo. O que muda é que não nos obrigando mais a dar conta de tudo poderemos decidir no que focar, eleger o que priorizar e escolher quais as batalhas lutar; assim, tiramos de nossas costas o peso que é viver mentindo para nós mesmas.
Karina Zeferino


