Se eu te oferecesse um sapato que você deseja muito, mas que não fosse do seu número, você o aceitaria?
E se esse sapato fosse extremamente bonito, elegante e todos ao seu redor dissessem que ele combina perfeitamente com você, mas ficasse apertado? Você o usaria mesmo assim?
E se, ao calçá-lo, você se sentisse bem por um tempo, mas nunca tivesse a possibilidade de trocá-lo, mesmo que ele começasse a machucar seu pé, ainda assim você aceitaria?
Valeria a pena andar pelo salão com o sapato dos seus sonhos e por de baixo do sorriso que esconde a dor, estar com os pés sangrando? Sem previsão de fim para esse sofrimento?
Neste exato momento, muitas pessoas estão vivendo essa realidade sem perceber que optaram por se ajustar a sapatos que as apertam, ferem e fazem sangrar. Sapatos que, embora pareçam bonitos por fora e tenham grande aceitação social, acabam limitando quem elas realmente são e impedindo-as de alcançar todo o seu potencial.
Por razões diversas, pessoas se apertam para caberem em espaços pequenos demais. Doloridos demais. Limitantes demais.
Disfarçam a dor acreditando existirem coisas boas além do sofrimento.
Acreditam, sem qualquer evidência, que o sapato um dia vai ceder e parar de machucar. Sem perceber que as cicatrizes ficarão para sempre, lembrando-as de que, em algum momento, insistiram em usar um sapato apertado demais.
O receio de ficar descalça pode levar a pessoa a tolerar sapatos que não são saudáveis. O vazio emocional parece mais assustador do que o desconforto de um sapato que machuca.
Muitas vezes, há uma necessidade de ser aceita ou validada pelos outros, especialmente com sapatos que têm aprovação social ou familiar. Pressões culturais ou expectativas sociais podem fazer com que a pessoa acredite que é melhor se manter num sapato que não serve, mesmo que doloroso, do que ficar descalça.
Quando alguém tem uma visão negativa de si mesma, pode acreditar que não merece um sapato melhor e que deve se contentar com o que tem. A dependência emocional ou financeira dificulta a capacidade de jogar fora um sapato prejudicial e ainda a pessoa pode romantizar o sapato, focando nos momentos bons e ignorando os sinais de alerta, acreditando que isso compensa o sofrimento.
Experiências de abandono, rejeição ou abuso no passado podem levar as pessoas a tentar caber em sapatos que não merecem, se diminuir para estar em sapatos pequenos demais para a grandiosidade do seu pé, ou mesmo, não progredir o tanto que sonhou porque caminhar tentando encaixar-se dentro de um sapato apertado é cansativo demais.
Minha recomendação é: não aceite um sapato apertado.
E entenda, essa história não é sobre sapatos.
KARINA ZEFERINO


