Quando foi que você entendeu que cresceu?
Eu por exemplo já me senti adulta diversas vezes em minha vida e era só chegar uma situação nova que caia por terra minha confiança, segurança e a sabedoria que acreditava já ter conquistado.
Senti que cresci quando tive uma conta em meu nome, mas logo descobri as artimanhas escondidas atrás dos limites bancários e cartões de crédito. Me vi fazendo contas no supermercado e calculando o valor do meu trabalho proporcional ao que queria comprar para ver se valia a pena, e na maioria das vezes, não valia. Minha mãe sempre dizia: “quando é você que tem que se esforçar para ganhar o dinheiro, dá mais valor na hora de gastar”, e não é que essas frases de mãe geralmente estão cobertas de razão?
Depois de tantas rasteiras da vida onde minha vontade era somente chorar em posição fetal no colo de alguém que resolvesse meu problema, mas como esse alguém era eu mesma, seguia em pé de cabeça erguida, percebi que não há como ter maturidade em um contexto pelo qual você nunca passou.
Geralmente a gente não lida da melhor forma que podemos com uma situação nova. Depois que passa, insights surgem te culpando, pois acredita que poderia ter agido de outra forma, falado com outras palavras, tido uma postura mais confiante… Enfim, quem nunca brigou com essas vozes em algum momento da vida?
O que acontece é que quando somos jovens, a maioria das coisas são novas e vamos errar muito. Errar feio. A questão é: deu para aprender com o erro? Quando essa situação aparecer novamente, conseguirá fazer diferente?
A maturidade é mais ou menos isso. Aprender errando para um dia acertar.
Vejo em mim sinais de maturidade para algumas coisas na vida pelas quais já errei muito e me orgulho de ter aprendido. Entretanto, não tinha orgulho nenhum de coisas pelas quais olho para trás e me arrependo. Para alguns assuntos eu até conseguia acolher aquela jovem imatura que não sabia fazer diferente e olho para ela com compaixão, mas em outros casos, olhava para trás e sentia vergonha. Não gostava nem de tocar no assunto para não lembrar que existiu. E se tem uma coisa que aprendi na vida, foi que aonde tem um desconforto, há algo a ser trabalhado.
O desconforto vinha da vergonha que sentia por ter sido inocente, incoerente e imprudente. Me deixei ser manipulada, enganada, abusada. Sentia que tinha demorado para alcançar um poder próprio para estabelecer limites e parar de aceitar menos do que merecia. Imaginava que estava atrasada para um conhecimento que as pessoas ao meu redor demonstravam já ter(?), sendo que isso é único de cada um e está na caixinha das coisas que não existe tempo certo para acontecer. Para o desenvolvimento biológico existem alguns marcos para alcançar, mas para o desenvolvimento emocional não, ele acontece no tempo de cada um.
Quando olhava para trás me questionava como pude ter deixado isso acontecer comigo mesma, como pude me colocar naquele lugar menor e deixar minha segurança e felicidade nas mãos de alguém que só pensava nela mesma???
Ao refletir, encontrei muita imaturidade. Mas quem nessa vida passou ileso por isso? Será que alguém já nasceu cheio de maturidade e nunca errou? Utopia.
Fui imatura sim. E quem não foi?
Já errei comigo mesma. E quem não errou?
Já me coloquei em situações de risco ou que não me orgulho hoje, mas volto na questão: e quem não?
A sociedade cultua a juventude, a pela lisa, o rosto sem marcas. Da mesma forma demoniza a velhice, o cabelo branco e as restrições impostas a cada aniversário que passa. Mas a juventude é irresponsável. A juventude é imprudente. Imatura. Não tem como não ser. Ou melhor, só não erra quem nada faz; e se é jovem, vai se arriscar.
Nelson Rodrigues na década de 1960 já disse “Jovens, envelheçam”, para incentivá-los a buscar a maturidade e a sabedoria que só o tempo pode proporcionar, desafiando a valorização excessiva da juventude na sociedade.
Hoje concordo e assino embaixo.
Há beleza no decorrer dos anos.
Há sabedoria no enrugar da pele.
Há segurança no enrijecer das articulações.
Há mais vida a cada ano que passa, mesmo que essa vida caminhe a passos mais lentos, seja menos produtiva e cheia de marcas.
Essas marcas são sinais de vivência, de maturidade.
Só não atinge esse marco quem não teve a oportunidade e aqui não mais está.
Consigo no presente estar em paz com o meu passado porque apesar de clichê, foram essas experiências que me tornaram quem sou, me deram a consciência que tenho hoje e a experiência para fazer diferente.
Posso agora acolher as partes de mim das quais não me orgulho tanto, porque entendo que era o que eu sabia fazer, como conseguia agir.
Sou capaz de olhar para trás e assumir que errei, fui ingênua e imatura…
…E quem não foi?
Karina Zeferino


