Tenho consciência de classe, conhecimento dos meus privilégios e noção da desigualdade social que segrega pessoas em nosso país, mas confesso que não foi sempre assim. Não fui incentivada a pensar nisso no colégio, não via a colonialização do Brasil como foi, como um problema e demorei muito para entender que não levar meu RG toda vez que saia de casa ou não andar com a nota fiscal das minhas compras era um privilégio enorme que eu havia conquistado somente por ter nascido com a pele branca.
Ainda bem que se não nos ensinam, podemos de livre e espontânea vontade ler, estudar e aprender. É simples. Não que seja fácil. Após entender certas coisas da nossa história é difícil não se revoltar, não querer fazer justiça ou mesmo avançar em algumas pessoas durante uma fala racista, misógina, homofóbica, gordofóbica, xenofóbica e inclua aqui todos os preconceitos possíveis vividos no mundo. Por enquanto consegui manter o réu primário e nesse momento de vida, mais madura e “terapeutizada”, como dizem por aí, consigo não me desestruturar – tanto – diante dessas cenas cada vez mais recorrentes propiciada pelas redes sociais.
Diante de tão intensos cenários ruins para as pessoas, muitas vezes olho para minhas dores e penso “isso nem é tanto, tem pessoas sofrendo muito mais”. Acredito que carrego essa experiência da minha infância, quando ia reclamar de algo, escutava: “mas olha tal situação, é muito pior do que a sua”, ou “olhe pelo lado positivo da coisa”.
Acredito muito em olhar o lado positivo das dores e aprender com elas, mas as vezes eu quero só chorar mesmo, entretanto, a voz na minha cabeça me culpa porque a minha situação não é tão ruim como de outros. Sabe aquela positividade tóxica que vira e mexe alguém faz, como: “tá com dor no pé, pelo menos você tem pé”, “seu carro quebrou, mas tem tanta gente andando a pé por aí”, “seu chefe realmente é um escroto, mas olhe pelo lado bom, você está empregada em um país com números absurdos de desempregados”. Pode ser inclusive verdade, mas não cura a dor.
Foi assim que aprendi a sempre olhar o lado positivo das coisas, até quando não existe eu crio. Foi assim que aprendi a reprimir minhas dores, esconder os sentimentos e agradecer por tudo o que me acontece. A parte de agradecer até que é bom, reconheço, mas repito, as vezes só quero chorar mesmo e sofrer a dor que se instala no peito. Foi assim também que aprendi a não reclamar do meu pai e amar o pai que nunca tive.
Muito se fala nos danos causados por crianças que crescem sem os pais e especificamente em nosso contexto sociocultural, sem o pai propriamente dito. Não irei aqui me estender nem minimizar, os traumas e consequências são muitos, inegáveis e precisa ser debatido para ser mudado. Contudo, não se fala muito nas consequências de crescer com um pai presente-ausente. Presente fisicamente ao mesmo tempo que ausente emocionalmente.
Meu pai compartilhou a mesma moradia que eu até os 13 anos e meio, quando se separou de minha mãe. Por muito tempo busquei na memória lembranças de vida com ele e acreditava que tinham se apagado da minha mente, mas eu lembro de coisas com minha mãe, com meus avós e até da escola. Foram anos de terapia para entender que as lembranças que buscava do meu pai na infância não existiam.
Calma, também não posso ser injusta. Algumas lembranças são muito fortes, assim como o dia que eu derrubei guaraná no sofá da casa da avó, mãe dele, ele brigou feio comigo e quando penso nessa cena me vem o mal-estar daquele momento. Ou quando na volta de uma viagem ele me trouxe de presente um creme dental de tuti-fruti, tão comum hoje em dia, mas extremamente raro para uma criança de classe média-baixa no início dos anos 90. Fui correndo escovar os dentes, claro, e num ímpeto de felicidade e impulsividade apertei na metade do tubo. Me pergunto por que fiz isso até hoje. Foi uma das cenas mais traumáticas da minha infância. Ele brigou muito comigo, pois o correto era apertar de baixo para cima, e ficou muito claro que eu não era capaz de ter algo novo ou diferente.
O pai que eu tive estava em todas as minhas festas de aniversário até os 13 anos, mas nunca foi a uma apresentação que fiz na escola, na igreja ou como baliza na fanfarra da cidade. O pai que eu tive estava todos as noites em casa, mas jantava com o prato na mão sentado no sofá vendo jornal pela TV e não me deixava falar alto para não atrapalhar. O pai que eu tive passava os domingos em casa, mas nunca saiu passear comigo, só eu e ele. O pai que eu tive nunca me deixou faltar nada material, como roupa, comida ou mesmo educação, mas nunca me deu um abraço sem que eu tivesse que pedir, nunca me instruiu para a vida ou cuidou de mim quando um outro homem se aproximou. Nem isso. Porém, como eu poderia reclamar se ele estava sempre ali? O que era isso que eu sentia que nem eu conseguia entender? Hoje eu sei como chama: FALTA.
Por muitas vezes senti raiva dele e até por isso me culpei, não é amor o que os filhos devem sentir pelos pais? Em um desses momentos de frustração e com uma audácia nunca antes vista, gritei que não gostava que ele fosse meu pai. Era o dia de uma apresentação importante para mim na igreja e mais uma vez ele ficaria em casa vendo jogo ou qualquer outra coisa na televisão. Consequência: da parte dele um silêncio que doeu mais do que um tapa e da parte da minha mãe foi a obrigação de me desculpar quando voltei para casa com as seguintes palavras: “eu não quis dizer aquilo”. Mais uma confusão na minha cabeça. Eu quis dizer EXATAMENTE aquilo. De novo não estava sendo considerada, estavam negando um sentimento e reprimindo quem eu era de verdade.
As situações que por anos tentei relembrar são as situações mais normais de uma infância: o pai brincando com a filha, ensinando alguma coisa, dando um conselho, protegendo de um perigo, se orgulhando por um feito dela, abraçando, beijando, acolhendo ou mesmo conversando na mesa do jantar. Demorou para eu me desapegar dessa figura paterna que a sociedade pinta ensinando que o pai é o seu herói. O meu não foi. E não porque ele não existiu. Simplesmente porque só estava lá de corpo presente. E sem o corpo não basta, mas só com o corpo igualmente não.
A ferida que toda essa história de vida me trouxe, foi a da rejeição. Se meu pai estava lá e eu estava lá, mas não recebia o amor e carinho de um pai, era porque ele não gostava de mim. Acreditei que não merecia amor. Por muito tempo aceitei migalhas como se fossem pedras preciosas. Demorei para acreditar que merecia, que valia, que podia. Custo ainda a entender que não sou um problema.
Sei que as pessoas só podem dar o que tem, e que pouco foi ofertado a meu pai para que ele pudesse me dar, apesar disso, já vi muitos pais e mães mudarem por seus filhos, ainda assim, minha existência não foi suficiente para que ele quisesse aprender, para que ele se esforçasse em mudar, para que ele quisesse me amar.
O meu problema com isso é que eu o amava. Eu queria essas coisas dele. Eu buscava o pai que existia nos meus sonhos e não encontrava. Buscava tanto que quando ele saiu de casa e nunca mais voltou me visitar, aqui um parêntese, era eu que ia visita-lo em sua nova casa, com sua nova família e o via carregando no colo o seu novo filho com um sorriso tão grande no rosto que me fazia questionar quem era aquela pessoa que eu nunca havia visto… mas voltando, eu o buscava tanto que após 6 meses da separação de meus pais comecei a namorar um homem 10 anos mais velho do que eu. Depois namorei um com 12 anos a mais, sofri abusos de outro mais velho também, apanhei de um moleque que eu acreditava amar e com diversos homens mais velhos convivi em relacionamentos abusivos. O último era 20 anos mais velho e me tratava como filha, desse eu demorei tanto para me desapegar que quase estraguei minha vida toda. Ah, da mesma forma fui casada com um homem de idade diferente da minha, esse foi o único que não me fez mal, tenho respeito e apreço por ele até hoje, mas não fui feliz nem o fiz feliz, a dificuldade, descobri anos mais tarde, era eu. Era eu que nem gostava de me relacionar com homens. Tive certeza disso quando pela primeira vez me relacionei com uma mulher e percebi ali que nunca tinha sentido atração por um homem. Fui dependente emocionalmente de todos com quem me relacionei dos 14 aos 35 anos. Mas aprendi a ver o lado positivo lembra? Então melhor 21 anos de dependência emocional do que a vida toda, né?
Ainda bem que existe a terapia e foi exatamente por isso que me tornei psicóloga, assim como a terapia me fez descobrir quem eu era e me apropriar dos meus desejos, almejo isso para outras mulheres, e homens também, todo mundo em algum grau tem dificuldades para enfrentar de algum período da vida.
Algumas vezes tentei falar como me sentia para meu pai, ele dava risada e nem ligava, revertia a história e dizia que eu é que sumia. Outras vezes tentar conversar com outras pessoas sobre meu pai, mas todas elas foram seguidas de: “não reclama, tem gente que nem conhece o pai”, “seu pai te deu tudo, não deixou faltar nada”, “seu pai é um bom homem, trabalhador e honesto”. EU NÃO DISCORDO DE NADA DISSO. Ele foi isso e um homem muito bom para muita gente. Foi um pai bom para mim também, mas não muda o fato de ter sido ausente emocionalmente e me gerado muitas marcas.
A verdade é que ninguém é só bom ou mau. Outra verdade é que não se mede graus de sofrimento e dores, só quem as sente é capaz de testemunhar o quanto doem e o quão difícil é estancar o sangue que insiste em jorrar das feridas porque a cada invalidação elas voltam a sangrar mais e mais.
A invalidação de minhas dores em relação a presença ausente do pai que eu tive também me colocou a pressão social de ser boa filha. Não criei laços profundos com a pessoa do meu pai, então não fazia muito sentido visitá-lo ou ligar para ele, nem assunto tínhamos depois do “oi, tudo bem? Tudo”, no entanto, o que mais senti durante os últimos anos foi o julgamento social por não estar perto do Marlei e não exercer o papel de filha. Aliás, qual é o papel de filha? Porque se existe um, também deve existir o papel de pai, e se não se teve o papel de pai, deve-se exercer o papel de filha? Um dilema moral para reflexão.
Assim como tudo na vida, cada um terá uma opinião e acredita que a sua é a mais correta, então, resolvi assumir minha opinião também. Decidi não fazer o papel de filha. Julguem-me se forem capazes.
Karina Zeferino


