O início de um preconceito

Durante uma de minhas sessões de terapia, tive uma lembrança que por anos ficou escondida em algum lugar de mim. Eu estava com 11 anos, na 6ª. série do ensino fundamental e era o ano de 1996. Naquele momento uma lei se alterou no estado de São Paulo e os ensinos foram divididos, o ensino fundamental I não ficava mais no mesmo prédio que o fundamental II, que agora se uniria ao ensino médio. Eu, que estava acostumada a uma escola pequena próxima a minha residência, me vi no primeiro dia de aula em um pátio muito grande, numa sala de aula muito grande e com colegas que pareciam muito grandes. Até então me via mais criança do que adolescente, brincava de escolhinha com meus ursos de pelúcia e não passava pela minha cabeça menstruar, namorar ou sair de casa sem a companhia de meus pais ou avós.

Por alguma razão as meninas eram mais evoluídas socialmente, tinham o corpo mais desenvolvido e as conversas mais modernas. Eu não me encaixava em quase nada ali. Prestava atenção na aula, tinha medo de alguns professores que nesse tempo ainda eram muito respeitados, assim como bravos e não tinha interesse nenhum em beijar a boca de um menino. Ainda assim, beijar foi o objetivo estabelecido para minha vida quando as meninas da sala souberam que eu nunca havia feito. 

Com essa idade e nesse cenário, pertencer ao grupo era o meu objetivo de vida e aos poucos fui deixando a timidez de lado, conversando mais com as pessoas e caindo na armadilha que quase todo pré-adolescente cai: fazer alguma coisa que não é da sua vontade para ser aceito e incluído.

Demorou, mas enfim vivi meu primeiro beijo atrás de um pilar no pátio em uma aula em que estávamos de “janela” porque o professor havia faltado. Não sei quem era mais criança, eu ou ele, e assim como não foi uma boa experiência para mim, creio que para ele também não.

Passada essa fase e agora parte daquele grupo de adolescentes descolados, comecei a ser alvo de uma garota da mesma sala e idade – que parecia muito mais velha e vivida – por um motivo que até hoje não sei, mas adolescentes não precisam de motivos para se estranharem. Ela passou a me xingar e me perseguir durante o caminho da saída da escola até o terminal de ônibus, uns 500 metros mais ou menos, fim de linha para ela. TODOS OS DIAS.

As meninas que eram minhas amigas iam ao meu redor dizendo para eu fingir que não estava escutando. As amigas dela iam incentivando e vibrando a cada novo palavrão que ela ousava pronunciar. Os meninos corriam em volta torcendo para que a gente se pegasse no tapa, pois para o construído gênero masculino, o que valia mesmo era a briga física.

Em um desses dias e já com o vocabulário de xingamentos bem aumentado para uma menina que não falava isso em casa, ela disse uma palavra que nunca tinha escutado antes: “sua lésbica”.  Assim como fazia sempre, não dei bola e segui meu caminho, porém, relembrar essa ocasião me traz além das lembranças na mente, todas as sensações vividas no corpo, o estranhamento refletindo em uma tensão muscular, o frio na barriga da vergonha da situação e o medo de enfrentá-la fazendo suar as mãos e palpitar o peito.

Assim que cheguei no trabalho da minha mãe, que ficava no meio do caminho entre a escola e minha casa, perguntei: “mãe, o que é lésbica?” Ela fez uma cara estranha e tentou desconversar. Eu insisti. Ela respondeu rápido que era quando uma mulher namorava outra mulher. E voltou para o trabalho.

Minha cabeça ficou confusa por dois motivos. Primeiro, eu nunca tinha escutado que uma mulher poderia namorar outra mulher, e segundo, por que afinal isso era um xingamento? Era errado? Feio? Por que não se falava sobre isso?

Hoje vejo o quanto eu era infantil, ou inocente, em relação a juventude atual, mas o contexto eram os anos 90 em uma cidade do interior com vinte e cinco mil habitantes. Consigo ver beleza nessa infância estendida, brincadeiras sem malícia e longe de qualquer tipo de ansiedade que vejo nas crianças passados 30 anos.

Minha mãe não quis dar maiores explicações, ainda assim essa palavra custou a sair da minha cabeça, passei dias tentando entender por que a pessoa disse isso a mim e por que seria um xingamento. Inevitavelmente passei a sentir a palavra como ruim, sombria e tentando me desvencilhar dela.

Ali, aos 11 anos, foi plantada em mim uma semente que não me pertencia. A semente do preconceito.

Pensando hoje sobre isso, a questão de me “xingarem” de lésbica deveria ter algum fundamento que não era consciente para mim, mas o fato de que uma semelhante usou essa palavra “contra” mim, gerou tão mal-estar que bloqueei essa lembrança por mais de duas décadas, no entanto, tenho absoluta certeza de que esse evento associado a falta de conversa com um adulto sobre o assunto, deram início a um preconceito contra mim mesma que eu teria que enfrentar e quebrar anos mais tarde.

Karina Zeferino

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