Um café especial

Acordei com um sentimento de nostalgia. Aquela sensação de que meu corpo está no presente, mas minha mente, as sensações e emoções estão no passado. 

Fecho os olhos e consigo me transportar para 1990. Estava quase 6 anos. Costumava ficar na casa dos meus avós durante a semana porque meus pais trabalhavam muito e isso não era nenhum problema. Gostava mais inclusive. 

Me lembro de dormir no sofá da sala, um sofá sem nenhuma tecnologia, mas que tinha muito conforto. Suas almofadas abraçavam meu corpo ainda miúdo e me davam uma noite tranquila de sono. Naquela época eu não tinha muito com o que me preocupar, nem celular para atrapalhar aquelas horas de descanso profundo que me deixavam cheia de energia para o dia seguinte. 

Antes mesmo de abrir os olhos, já sentia o cheiro do café coado na hora. Me despertava um pouco lenta, como sou até hoje antes do café, e a passos vagarosos ia até a cozinha encontrar aquela senhora de cabelos brancos que sorria ao me ver chegando. Depois do bom dia, a primeira pergunta era a que eu mais gostava: “quer café?” Balançava a cabeça de cima para baixo e esperava as últimas gostas caírem do coador. Enquanto isso, assistia minha avó passar a manteiga no pão e espetar na metade dele uma faca, ela o levava até o fogo e pouco a pouco eu ia vendo a manteiga derreter e o pão ficar com umas casquinhas que faziam meu estômago roncar. Quando estava tudo pronto ela dizia para eu me sentar no sofá e colocava o prato em cima de uma almofada em meu colo com o café no copo de requeijão. Nunca tomei um café tão saboroso quanto daquele copo. 

Perdia a noção do tempo enquanto me alimentava e assistia desenho animado. Caverna do dragão, ursinhos carinhosos, tartaruga ninja e outros típicos da década de 90 preenchiam os minutos preciosos do café da manhã enquanto ia me despertando para viver um dia todinho ao lado da minha melhor amiga, minha avó.

Pensando agora, me parece cedo uma criança de 5 anos gostar de tomar café puro pela manhã, mas o café da vó Cida era delicioso e docinho. Talvez seja por isso que hoje, aos 40 anos, recebo todo mês em casa cafés especiais selecionados de pequenos produtores, contudo, não consigo tomar sem açúcar. Já tentei e sei que os especialistas dizem que só gosta mesmo de café quem o toma sem adicionar nada. O que os especialistas não sabem, é que o gosto de uma memória afetiva, vale mais que qualquer essência que eu deixe de sentir por colocar uma colher de açúcar. 

Durante anos repeti essa rotina ao acordar na casa da vó, o cheiro do café só não era melhor do que o cheiro dela ao me beijar todos os dias pela manhã, o gosto só não era mais doce do que suas palavras ao me ouvir e instruir para a vida e a temperatura só não era mais quente do que seus braços a me enlaçar no abraço mais confortável que já senti na vida.

Tenho muita saudade da minha avó e sinto muito que ela tenha partido tão cedo, no entanto, todos os melhores hábitos que tenho hoje, foram iniciados durante a infância na casa da vó, e tenho orgulho de ter essas lembranças que me aquecem o coração, assim como o café aquece meus dias.

Para sempre, obrigada Vó Cida.

Karina Zeferino

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