Um erro deve ser levado para sempre? 

Meus pensamentos estão acelerados a dias depois que um assunto dominou a internet durante a última semana. Além das versões da história, já li muitas opiniões. Concordo com algumas, discordo de outras e até com a posição de uma mesma pessoa consigo concordar e discordar em partes, essa é a beleza da democracia, temos o direito de falar, apoiar ou divergir.

Sem entrar na questão específica e em tudo o que já falaram, quero refletir sobre: como enfrentar um erro cometido no passado? Ele deve ser levado para sempre? Bom, a primeira coisa que posso falar é que esse assunto tem várias camadas e como todo tema complexo, não há respostas simples.

Partindo do ponto que o ser humano é falho, erra e vai errar ainda muitas vezes, pois a perfeição não existe nesse mundo, não há nenhum mérito em julgá-los aqui, mas pensar sobre eles. Sobre os nossos próprios aliás, afinal, quem nunca errou que atire a primeira pedra.

Lembrando que não há o que falar de erros que são crimes, para esses existe a justiça que julga conforme a lei. Pensemos também que alguns erros são mais graves que outros, envolver mais pessoas ou prejudicar além de si mesmo. Daí em diante, e os erros da vida? Do desenvolvimento? Aqueles que você olha para trás e tem vergonha de um dia ter pensado ou agido? Há que se carregar até quando?

Depois dos anos da psicologia minha resposta é: depende. Primeiro: já entendeu que errou? Porque muitas pessoas diante de uma situação de falha, não conseguem nem se quer assumi-la; segundo: para a pessoa prejudicada, foi um trauma? O trauma é uma resposta emocional intensa a eventos que ultrapassam a capacidade de uma pessoa suportar, impactando a mente, o corpo e o comportamento, muitas vezes deixando marcas profundas que podem persistir ao longo da vida; e terceiro: já fez algo para reparar? A ideia de reparação é central na teoria de Melanie Klein[1], uma das grandes figuras da psicanálise, especialmente no contexto do desenvolvimento emocional infantil. Segundo ela, a reparação é uma tentativa de reconstruir e restaurar aquilo que foi “destruído” no mundo interno ou nas relações com os outros. 

O impulso de reparar é essencial para o crescimento emocional e a saúde psíquica. Klein acreditava que esse mecanismo se perpetua na vida adulta, influenciando como lidamos com erros, perdas e conflitos. A reparação, segundo a psicanálise, pode ajudar a “encerrar” o erro emocionalmente e psicologicamente, tanto para quem errou quanto para quem foi afetado. Porém, a ausência de reparação pode fazer com que o impacto do erro permaneça vivo, alimentando ressentimentos e dificultando a cura emocional. 

A falta de um pedido de desculpas ou de ações reparadoras pode abalar a confiança em outras relações e sem reparação, o erro pode ser revisitado constantemente pela pessoa prejudicada, tornando-se um peso emocional que impede o encerramento. Ou seja, um trauma; porque o trauma não depende da grandiosidade do evento, e sim, de como a pessoa o sentiu e viveu ficando traumatizada quando não conseguiu lidar com a situação.

O livro “O Corpo Guarda as Marcas” do psiquiatra Bessel van der Kolk[2], é uma obra fundamental sobre o impacto do trauma no corpo e na mente. Nele, van der Kolk explora como experiências traumáticas afetam não apenas o cérebro, mas também o corpo, e como o trauma pode influenciar emoções, comportamentos e relacionamentos ao longo da vida. O autor argumenta que o trauma muda a estrutura cerebral, entretanto não é apenas um evento mental, mas algo que literalmente se “inscreve” no corpo. Isso pode se manifestar em dores crônicas, tensões musculares e até doenças físicas.

Portanto, a reverberação do erro pode continuar afetando a vida das pessoas envolvidas de acordo com a gravidade e traumatização, e não depende pura e simplesmente da desculpa rasa de que a pessoa “ainda não superou”, como se dependesse dela todos os esforços para se curar do que não provocou. 

Não acredito que uma pessoa deva ser eternamente culpada por um erro cometido, mas precisa se responsabilizar por ele. Todos nós precisamos bancar nossas escolhas e nos comprometer com elas, mais ainda quando essas escolhas machucam ou traumatizam outras pessoas, pois, o que para um foi “somente” um erro, muitas vezes colocado na caixinha da imaturidade, pode ter siso a destruição da vida física e/ou psíquica da outra pessoa. Por exemplo, mulheres abusadas sexualmente por mais que “superem” o acontecido e sigam suas vidas, inevitavelmente vão carregar marcas emocionais por algum tempo. Ou para sempre. Depende do quão profunda foi a ferida. 

Assumir a parte de responsabilidade em todo conflito é reconhecer o impacto de nossas ações no outro, aceitar nossas falhas e buscar restaurar o equilíbrio nas relações. Requer maturidade emocional.

No caso de a sociedade cobrar a responsabilização pública de um cidadão, de certa forma é educativo: para quem errou ter a oportunidade de reparar, outros aprenderem e não reproduzirem, e pessoas que vivem a mesma situação se sentem mais fortes para buscar ajuda. Quando a reparação é bem-sucedida, ou seja, genuína, aceita e acompanhada de aprendizado, o erro pode ser “encerrado” no sentido emocional e simbólico. Isso não significa esquecê-lo, mas integrá-lo como parte da história de crescimento e aprendizado. Sem Reparação, o erro tende a se perpetuar como um “peso emocional” ou uma ferida aberta, tanto para quem errou quanto para quem sofreu as consequências.

A cultura do cancelamento não é saudável para ninguém e precisa acabar, mas a cultura do silenciamento, invalidação de dores e culpabilização da vítima já não é mais tolerada em nenhum contexto. Já basta a energia tremenda para levar uma vida normal e, ao mesmo tempo, carregar a memória do terror e a vergonha da vulnerabilidade vivida. 

Seja como for, seja quando for, no momento em que uma vítima consegue se expor, ela necessita ser ouvida e validada, isso é parte da cura, porém, principalmente para que não volte a acontecer. Com ela, nem com ninguém.

Karina Zeferino

Psicóloga e escritora


[1] Klein, M. (1937). Amor, culpa e reparação. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Volume I das obras completas de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago. 1996.

[2] VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda as marcas: Cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Sextante, 2020.

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