A beleza de ser quem você é, mulher

Hoje parei para pensar: por que eu gosto de quem eu gosto?

E percebi que, quando gosto de alguém pelo que ela é — e não pelo que me proporciona —, gosto genuinamente.
Sem obter nada em troca.
Sem vantagens.
Sem um porquê racional.

Quando amo uma pessoa pelo simples fato de ela ser quem é, mesmo com partes que não me agradam tanto, encontro minha forma de amar.

Amor pelo simples fato de amar.
Não porque é bela — a beleza passa.
Não porque é rica — a riqueza é instável.
Não por um cargo — os cargos são transitórios.

E então notei a diferença entre ser e estar.
Amo quem é: verdadeira, leal, justa, sincera, carinhosa, imperfeita.
Amo quem tem alma.

E se consigo amar alguém pelo que ela é, então posso me amar também, por quem eu sou.

Lembro de quantas vezes deixei meu eu de lado para ser o que o outro esperava, só para ser amada.

Quantas vezes me deixei invadir pelas expectativas de alguém que achava saber quem eu deveria ser.

Grande engano.
Na verdade, dois: achar que preciso ser amada por todos, e deixar de ser quem sou para agradar alguém.

Hoje entendo: as pessoas que realmente ficaram na minha vida foram aquelas que viram meus piores momentos, meus defeitos mais insanos, minhas loucuras.

E ficaram.
Porque havia respeito.
Porque havia amor.

Hoje sei que as maiores burradas da minha vida foram as tentativas de agradar a todos.
Abandonei meus desejos pelos desejos alheios.
Mudei meu jeito natural de ser só para ser aceita.

E percebi como a sociedade nos treina para isso.

Nos conta mentiras como: “Mulher tem que se comportar.”
E por comportar, entenda: calar, abaixar a cabeça, ser submissa.

“Mulher que grita é louca.”
“Mulher que se posiciona é revoltada.”
“Mulher de decote é vadia.”
“Mulher com opinião própria é rebelde.”
“Mulher que não casa é promíscua.”
“Mulher sem filhos não conhece o amor.”

E a lista de “nãos” é interminável.
O único “sim” permitido parece ser: “Mulher boa se submete.”

Crescemos assim: reprimidas, caladas, aceitando menos do que merecemos, obedecendo o sistema, lutando para sermos amadas, sonhando com o príncipe encantado, competindo com outras mulheres sem nem saber o motivo.

Alguém um dia nos disse que outra mulher poderia roubar nosso lugar.
Mas não nos explicaram que cada uma de nós tem um lugar único.
E que juntas seríamos muito mais fortes.

Talvez esse seja o maior medo deles.

Mas a mulher nasce com um GPS interno.
E por mais que tentem desviá-la, a intuição sempre a chama de volta.
Para dentro.
Para a essência.

Pode demorar.
Mas uma hora a insatisfação transborda.
E ela desperta.

Desperta para perceber que não precisa agradar ninguém.
Que quem a ama de verdade, ama justamente a parte em que ela é ela mesma.

E quem não gosta… não precisa ficar.

Nesse momento, ela começa a se descobrir.
A entender o que gosta, o que quer, o que faz sentido.

Começa a se afastar do que não soma.
Deixa de repetir comportamentos ensinados
e começa a questionar: Por quê?

E aí, claro: é chamada de teimosa.
De rebelde.

E gosta disso.
Porque sabe: só se rebelando contra o sistema que a criou ela poderá ser livre como sempre sonhou.

Essa mulher é você.
Essa mulher sou eu.
Essa mulher somos todas nós:

As que já foram diminuídas apenas por nascer mulher.
As que foram assediadas por quem se achava superior.
As que foram abusadas por um estranho, um chefe, ou um parente.

Todas nós que andamos mais vulneráveis na rua, por sermos as “presas fáceis” do sistema.

Mas todas nós, em algum momento, despertamos.

Seja aos 15, 18, 30, 50 ou 80 anos.
Chega uma hora em que descobrimos: podemos ser muito mais do que nos contaram.
Podemos fazer mais do que nos induziram.
Podemos realizar os sonhos mais loucos.
E podemos amar e ser amadas por quem nos vê de verdade, inclusive por outra mulher.

Karina Zeferino

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