Olhei para a mulher que sou hoje e agradeci.
Todos veem a superfície, aquilo que está exposto aos olhos.
Poucos conhecem o que há em meu interior.
Olhei para dentro de mim e me senti orgulhosa: orgulhosa pelas batalhas vencidas, pelas pequenas e grandes lutas ultrapassadas, pelos traumas superados e pela mulher que me tornei.
Pensei: que sorte a minha ser minha.
Que sorte ser quem sou.
Ser livre para caminhar por onde eu quiser.
Ser, sem reservas, quem desejo ser.
Mas percebi que não foi sorte.
Foi escolha.
Escolhi romper padrões sociais.
Escolhi quebrar barreiras familiares.
Escolhi buscar uma vida que me fizesse bem.
Renunciei ao conforto, à comodidade, à zona segura e conhecida que exigia pouca energia para viver, mas não me fazia feliz.
Mesmo tendo tudo aquilo que tantos desejam.
Escolhi buscar minha felicidade, custasse o que custasse.
E custou.
Custou dias amargos, lembranças dolorosas, o distanciamento de pessoas, lágrimas, solidão.
Custou conhecer o fundo do poço.
Mas o preço foi justo.
Paguei por ter sido quem não era.
Por ter correspondido às expectativas alheias.
Por me colocar em segundo plano.
Por priorizar os outros.
Por tentar me encaixar onde nunca foi meu lugar.
Conhecer o fundo do poço me mostrou os limites.
E ali, só restava um caminho: a subida.
A qual chamei de reconstrução.
Aos poucos, me reconectei com minha essência.
Redescobri o que me fazia bem.
Reconheci o que gostava.
Recomecei a jornada: por mim, para mim.
Me desconstruí para poder me reconstruir.
Doeu.
Machucou.
Feriu.
Mas nada doeu mais do que ter me perdido de mim mesma.
E foi esse reconhecimento que impulsionou minha subida: o desejo de me reencontrar.
Hoje, me olho no espelho e me enxergo.
Reconheço minhas qualidades.
Encaro meus defeitos.
Não tenho mais vergonha de ser quem sou.
Quero ao meu lado pessoas verdadeiras.
Já não me esforço para caber onde não há espaço.
Minha ambição é ser aceita como sou.
E quem não aceitar… trilhará outro caminho.
Já não tenho medo da solidão.
Minha companhia me basta.
E foi apreciando minha própria solitude que encontrei as melhores companhias: as recíprocas.
Vejo minhas fotos antigas e não me reconheço.
Parece outra vida.
Outra pessoa.
E era.
Hoje vejo rugas no rosto e cicatrizes na alma, mas jamais voltaria à antiga forma para não tê-las.
Foram elas que me fizeram quem sou.
Consigo olhar no fundo dos meus olhos e me perdoar.
Fiz o que pude com os recursos que tinha.
E por saber disso, hoje escolho a mim.
Escolho me abraçar.
Me acolher.
Me entender.
Escolho dar voz ao meu coração.
Escolho meu bem-estar sem culpa.
Minha felicidade sem achar que é egoísmo.
Escolho estar ao meu lado.
Escolho pessoas que, como eu, sabem que são imperfeitas, porque é isso que as torna reais.
Escolho me valorizar sem depender da validação de ninguém.
Escolho me amar para que alguém, comigo, possa me amar também.
Escolho a mulher que sou hoje.
Me orgulho da mulher que me tornei.
E sei: ainda há muito a mudar.
E que bom.
Não quero ser a mesma para sempre.
Quero aprender, evoluir e todos os dias, continuar me escolhendo.
Continuar me amando.
Karina Zeferino


