Tive medo de abrir os olhos quando minha cabeça, enfim, parou de girar. Sentia a umidade do chão gelado, o cheiro de pedra. Estava em um lugar escuro. Sentia frio. Meu corpo doía. Queria voltar… Mas para onde. Nem sei de onde vim.
O silêncio me assustava. Percebi que o medo de ver não fazia mais sentido, eu já sofria por não enxergar. Abri os olhos, devagar. Não entendi onde estava. Parecia uma caverna. Muitas pedras pontiagudas. Lembrei das aulas da escola: como era mesmo o nome?
Estalactites.
“Se formam pelo gotejamento de águas nas fendas das cavernas de rocha calcária.” Por que me lembro disso agora?
Me levanto com cuidado. Não há ferimentos. Mas o corpo dói. Será que morri?
Me belisco.
Dói.
Devo estar viva. Ou será que morrer dói? Quantas perguntas sem resposta…
Caminho alguns passos.
Aos poucos, minha visão se adapta à baixa luz.
E então vejo: escadas. Por toda parte. Escadas de todos os tipos. Reta, caracol, circular, em cascata… subindo e descendo como se fossem parte da paisagem da minha mente. Não sei como vim parar aqui. Tampouco qual caminho seguir. Qual escada me leva onde preciso?
Aliás… o que é que eu quero? Bem que podia aparecer o Mestre dos Magos…
Era nesses momentos que ele surgia, destravando os caminhos. Boba referência, eu penso. Só serve para lembrar que estou perdida. E que já vivi tempo demais. Tomo coragem e grito:
— Tem alguém aí?
Aí… aí… aí… É só o que me responde.
Não sei se tremo mais de frio ou de medo. O coração acelera. A boca seca. A respiração encurta. Sinto que, se não fizer algo, minhas pernas vão falhar. Mas… o que quero? Se ao menos lembrasse como vim parar aqui…
Lá longe, vejo uma escada que brilha. Talvez seja por ali. Piso no primeiro degrau — e ele se desfaz. Quase caio no abismo. O peito aperta, a respiração falha.
Entendo: minha escolha precisa ser consciente. Nem todo brilho leva à saída. Me sento. Penso. Apesar das dores, quero viver. Quero escrever sobre o que me incomoda. Quero ser lida. Ser compreendida. Ser gostada — ou não. Mas que isso não me doa.
Quero me amar. Aceitar que não sou quem idealizei. Quero ser quem sou. Aceitar meus erros, fragilidades, imperfeições. Quero ser conhecida. Fazer a diferença. Influenciar. Deixar um legado. E parar de sofrer.
É isso: não quero mais sentir dor.
Olho ao redor. E, enquanto cada pensamento se solidifica, as escadas vão desaparecendo no ar. Compreendo: quando sei o que quero, os caminhos se estreitam. Mas restaram duas escadas. Bem parecidas. Indo em direções opostas. A indecisão sempre esteve comigo. Quanto mais penso, mais dúvidas. Quanto mais quero enxergar, mais escuro parece. Então sinto. Esse deve ser o caminho. Lembro do Pequeno Príncipe:
“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”
Quanto mais medo, mais razão. Quanto mais pressa, menos coração. Fecho os olhos. Respiro fundo. Silencio. Penso em quem sou. Nos meus valores. Princípios. Desejos mais íntimos. E então o frio dá lugar ao calor do sol, que entra pelas frestas abertas no derreter das rochas. O medo cede espaço à esperança. Eu me reconheço. Sei o que quero. Sei que posso.
Porque já não me sinto sozinha.
Tenho minha companhia.
Mesmo de olhos fechados, sei a direção.
Abro os olhos.
Não há mais dúvida. Só uma escada à minha frente. E começo a subi-la, vendo o sol, o céu, e os pássaros a voar — como sei que estarei em breve…
O despertador toca.
Acordo assustada.
O sol já invade meu quarto.
Ainda atordoada, me levanto mais leve.
Hoje será um dia decisivo.
Mas já sei qual escada subir.
Já sei escutar meu coração.
Já sei quem sou.
Karina Zeferino


