A liberdade para as mulheres ainda é sinônimo de risco — não pela liberdade em si, mas porque o mundo ainda não aprendeu a aceitar que a gente queira ir além do cercadinho doméstico. Sozinha.
Muita gente ainda estranha que uma mulher viaje sozinha. Para muitos, isso soa como ousadia, desajuste. Como se o simples ato de se lançar no mundo fosse um convite para que algo ruim acontecesse. É uma questão de cultura. De um machismo antigo, herdado, enraizado. De séculos nos dizendo que o lugar da mulher é dentro — não fora. Que liberdade é perigosa. Que independência é arrogância. Que mulher aventureira é promíscua. Ou perdida.
A menina raramente é incentivada a explorar. Aos meninos, o mundo. Às meninas, a sala de estar. Enquanto eles são estimulados a subir em árvores, elas são ensinadas a sentar comportadas.
Eu dei sorte. Pratiquei esportes, meus pais me estimularam. Talvez tenha sido ali, na quadra ou dentro da piscina, que eu aprendi a cair e levantar. A perder o medo de me arriscar. O esporte me ensinou a encarar desafios, a lidar com dor, a confiar no meu corpo. Juntou com algo que já vinha de fábrica: o espírito livre. Mas a coragem não veio pronta — ela veio de treino, de fracasso, de enfrentar perrengues. De aprender a calcular perigos, porque o mundo nunca foi gentil com mulheres sozinhas. Mas o medo nunca foi suficiente para me prender. Havia uma fome maior. Uma fome de viver.
O mundo, esse mesmo mundo que é livre por natureza, ainda não está disponível para todas. O machismo nos prende em normas invisíveis. O mundo ainda é pouco acessado por brasileiras sozinhas. Eu sempre soube que, como mulher, ele não seria meu por herança — então seria por insistência.
A liberdade só começou a fazer sentido quando conquistei meu próprio dinheiro. E não foi luxo, foi necessidade. O que me moveu não foi só coragem — foi fome do mundo. Fome de sair do lugar. De ser dona da minha própria história.
É por isso que me enxergo completamente quando vejo mulheres como a Juliana Marins. Jovem, brasileira, mochileira. Desafiando a tal “ordem natural” ao viajar sozinha por países da Ásia. Ela tinha contratado uma agência que se vendia como preparada. Estava em Lombok, na Indonésia, quando decidiu subir o Monte Rinjani, um vulcão ativo de mais de 3.700 metros. Mas houve exaustão. O clima virou. E o resgate demorou. Em um país com estrutura precária para esse tipo de missão, ela acabou caindo em uma encosta íngreme e não resistiu.
Não foi imprudência. Não foi falta de juízo. Mas o mundo apressadamente perguntou: “O que ela estava fazendo sozinha?”
Enquanto isso, milhares de homens sobem montanhas, cruzam desertos, escalam penhascos — e são chamados de aventureiros, exploradores. Ninguém questiona por que estavam lá. Ninguém pergunta o que estavam pensando. Mas com a gente, a liberdade ainda precisa ser justificada. Como se o erro fosse ter ousado existir fora do esperado.
A tragédia da Juliana escancara esse machismo travestido de precaução. “Mulher tem que se cuidar” é o que dizem. Mas o que querem dizer, no fundo, é: “melhor ficar em casa.” Juliana estava fazendo o que tantas de nós já fizemos. Mas ainda somos poucas. Ainda somos exceção nesse mundo. Algumas voltam. Outras, como ela, não. Mas todas têm o direito de ir.
Quando algo dá errado, a primeira pergunta não é “o que houve?” — é “por que ela estava sozinha?” O julgamento vem antes da empatia. O mundo nos interroga. Nos vigia. Nos condena.
Viajar sozinha foi, para mim, a escola mais rica que já frequentei. Aprendi a calcular riscos, a dizer não com firmeza, a prestar atenção ao redor, a improvisar, a confiar em mim. Aprendi a entender meus limites, a ficar só sem me sentir solitária. Levei essa bagagem para o trabalho, para os relacionamentos, para os dias incertos. E mais: aprendi que o mundo é maior do que me disseram. Que tem beleza, hospitalidade, surpresas. E que a gente merece tudo isso — sem ter que pedir desculpas.
Viajar sozinha não é só turismo. É um gesto político. É uma declaração de existência. Quando uma mulher viaja sozinha, ela desafia toda uma estrutura que há séculos diz: “fique em casa.” “Fique quieta.” “Fique esperando.” “Fique disponível.”
E a gente vai.
A gente vai com medo mesmo. Com coragem de ter. Com vontade de viver uma vida que seja nossa — como Juliana. Que o mundo, um dia, seja mais justo e mais gentil com todas as mulheres que ousam viver fora do roteiro previsto.
Karina Zeferino


