Quando o olhar discrimina mais do que o preço

Em 1990, Uma Linda Mulher estreava nos cinemas com uma das cenas mais simbólicas da cultura pop: Vivian, a protagonista, entra em uma loja de luxo na Rodeo Drive, e é tratada com desprezo por estar “fora do padrão”. Mal sabiam elas — as atendentes de nariz empinado — que ela carregava um cartão preto e a vontade de comprar o mundo inteiro se quisesse. Trinta e cinco anos se passaram.

Trinta e cinco.

A internet chegou, os streamings chegaram, o feminismo avançou, o debate sobre aparência e diversidade cresceu. Mas certas vitrines continuam mostrando progresso… enquanto por dentro, as velhas prateleiras do preconceito permanecem intactas.

Essa semana, minha esposa foi comprar meu anel de formatura. Um presente com história, afeto e escolha. Voltava do haras, onde treina adestramento, um esporte nobre, mas invisível aos olhos de quem só enxerga etiquetas. Estava com a roupa da hípica, suada, sem maquiagem. 

Entrou em uma joalheria de shopping, com o cartão no bolso e um gesto de amor nas mãos. E foi medida dos pés à cabeça. Não pelas dimensões do dedo, mas pelos olhos alheios. A vendedora hesitou, não ofereceu, não sorriu. Quase como se dissesse: “a porta é logo ali”. Minha esposa não foi escorraçada. Mas também não foi acolhida.
E isso, em pleno 2025, ainda me escandaliza. Porque o estereótipo segue vivo. O da mulher arrumada, cheirosa, lisa, sorridente — essa merece ser atendida. A suada, a simples, a que veio do treino ou da luta do dia… essa é suspeita.

Confundem conforto com descuido. Elegância com padrão. Dinheiro com aparência.

Mas há um ponto ainda mais profundo: a desigualdade não mora apenas na renda, mora também no olhar. E esse olhar, quando carregado de preconceito, pune em dobro quem vem de fora do lugar esperado. Porque há quem sonhe com o que nunca pôde ter, e quando finalmente consegue, é tratado como se não merecesse.

A pessoa periférica, a mulher negra, o jovem de boné, a senhora que não se veste como o público desejado… todos eles carregam esse fardo: o de desejar o que lhes foi negado a vida inteira e o de serem lembrados, até na hora da compra, que não pertencem.

Enquanto isso, quantas vezes o “cliente ideal”, vestido como manda o script, está mergulhado em dívidas, pagando status a prazo, falido por dentro e por fora? Mas ele parece “ter cara de quem pode”. E isso, nesse mundo de aparências, ainda vale mais do que qualquer história verdadeira.

Vivian voltou no dia seguinte e disse: “Vocês trabalham por comissão, certo? Grande erro o de vocês. Enorme.”

Eu fico pensando: e se fosse diferente?

Se, ao invés de medir as pessoas pelo figurino, a gente olhasse para o que elas carregam nas mãos e no olhar?

Talvez, quem sabe, ganhássemos mais do que comissões.

Ganharíamos encontros reais.

E lembraríamos que o verdadeiro sentido de riqueza nunca esteve no dinheiro, mas na capacidade de reconhecer o valor onde ele realmente habita.

Karina Zeferino

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