Quando os sentimentos extravasam dentro de mim, costumo chorar através dos dedos.
Escrever sempre foi meu hobby — e meu alívio.
Já me salvou em momentos de angústia, quando achava que só eu sofria no mundo.
Mas percebi algo curioso:
sempre escrevi sobre temas fortes — dor, amor, raiva, tristeza, alegria.
Hoje li uma crônica que falava, pura e simplesmente, sobre alívio.
E me dei conta de que nunca tinha pensado como esse sentimento é bom.
Tão bom.
É um alívio acordar no meio da madrugada e ver que ainda são duas da manhã.
Significa que posso dormir mais algumas horas.
É um alívio quando ao perceber alguém caminhando atrás de mim, ver que é…
outra mulher.
É um alívio me sentar no vaso sanitário quando estou com vontade de fazer xixi.
(E desculpa a franqueza, mas quem nunca?)
É um alívio comer chocolate na TPM.
Beber água numa tarde de calor escaldante.
Chegar ao destino de uma viagem.
Voltar para casa depois da mesma viagem.
Dormir quando se está com sono.
Aliás, dormir e comer são duas maravilhas fisiológicas.
Me transformo numa versão que não gosto de mim quando estou com sono ou fome.
Agora… com sono e fome juntas?
Prefiro nem comentar.
Me peguei pensando:
por que nunca escrevi sobre coisas leves?
Sentimentos fáceis?
Acontecimentos banais?
Será que, como humanidade, só damos valor ao que pulsa forte?
Ao que gera taquicardia, treme as pernas, fecha a garganta ou enche o estômago de borboletas?
Será que um dia bom não pode ser simplesmente aquele em que conseguimos — com calma, começá-lo e terminá-lo sem grandes tragédias ou euforias?
Nos dias de hoje, queremos saber qual será a próxima missão à Lua.
Mas não escutamos o canto do pássaro em plena cidade.
Acompanhamos o submarino que implodiu em alto-mar,
mas não percebemos as emoções de quem está ao nosso lado na mesa do jantar.
O banal pode ser bom.
O tranquilo pode ser saudável.
O comum pode ser agradável.
O cotidiano pode ser prazeroso.
O habitual pode ser encantador.
É um alívio quando nos damos conta disso.
Karina Zeferino


