Esse é um conto de fadas sem fada, sem castelo e sem príncipe.
Mas calma.
Para se ter um final feliz, não precisa disso tudo.
Vou contar a história de uma jovem que não tinha um castelo, mas tinha uma casa bonita, com tudo de que precisava: uma cama macia, cobertor quentinho e um chuveiro mais quente ainda. Sua mãe e seu pai não tinham ouro nem joias, mas a ela nunca faltou educação, nem comida nas refeições. Parecia uma menina alegre, mas por dentro se sentia triste. Nada lhe faltava, contudo, a felicidade não a visitava. Cresceu aprendendo a ter bons pensamentos, bons sentimentos, e a saber quais palavras não deveria falar. Quais emoções uma boa menina não deveria sentir.
Mas ela sentia.
Não que fosse má, mas às vezes ficava triste, nervosa, com raiva…
E como queria continuar sendo uma “boa menina”, guardava tudo dentro de si. Começou a sentir dores no corpo.
Sua família a levou a muitos médicos, que diziam sempre a mesma coisa: “Ela está ótima.”
E como ela havia aprendido a sorrir mesmo quando queria chorar, ninguém percebia que sua dor vinha de dentro — da alma. Ela se sentia diferente, e a alegria ao seu redor parecia de mentira. Assim como ela mesma mentia, tentando ser o que os outros esperavam. De tanto mentir para si, chegou o momento em que parou de sentir tristeza… Mas também não sentia mais nenhuma alegria. Sentia dores na barriga, na cabeça, nas costas. E não tinha vontade de levantar da cama. Ninguém falava sobre a vida ou sobre sentimentos com ela. Tudo ficou pior quando ouviu que, por ter tudo o quetinha, não tinha motivo para estar triste. Diziam que muitos gostariam de ter o que ela tinha — e que ela não valorizava.
Mas ela era grata.
Só que não era sobre ter.
Era sobre ser.
Ser quem ela era.
E ela era triste num lugar onde ninguém enxergava: dentro dela. Foi assim que resolveu mudar de vida e buscar ajuda para se entender.
No começo teve medo, duvidou, desconfiou se estava fazendo o certo… Mas, sozinha, aprendeu que o certo e o errado não existem quando o assunto são os sentimentos. E para ela, era certo seguir o caminho do seu coração. Nesse percurso conheceu pessoas boas e ruins. Aprendeu o que gostava e o que não gostava. Entendeu que nem tudo o que ensinaram fazia bem — e que ela podia arriscar fazer as coisas do seu jeito. Também funcionavam. Conheceu uma pessoa que, pela primeira vez, quis escutar seus sentimentos. E que a ensinou a voltar a senti-los. Durante alguns anos, encontrava essa pessoa uma vez por semana e trabalhava firme em seu autoconhecimento. Descobriu que a tristeza não é uma emoção ruim. É humana. Serve para processar, reorganizar e atravessar as situações dolorosas da vida.
Ficou feliz por entender que não era uma pessoa ruim.
Percebeu que falar sobre as emoções era saudável, e que a tristeza podia dar lugar à alegria, à amizade e ao encantamento pela vida.
Aos poucos, sentiu-se mais confiante, mais bonita.
Aprendeu a reconhecer seus pontos fortes e os que ainda precisavam de cuidado.
Nesse processo, sentiu pela primeira vez o amor.
Um sentimento puro, de paz, que preencheu seu corpo inteiro e levou embora as dores que há anos sentia.
Esse amor a fez conquistar o que queria e sonhar novos sonhos.
Esse amor a acalmou.
Confortou.
E nunca mais a deixou se sentir sozinha.
Esse amor era: o amor-próprio.
P.S.: Às vezes ela ainda se sente triste.
Mas hoje sabe como lidar com todas as suas emoções.
E ajuda outras pessoas a se conhecerem e a descobrirem que falar sobre sentimentos… também cura a alma.
Karina Zeferino


