Feminista. Palavra que assusta algumas, mas fortalece tantas outras. Nem sempre me declarei assim, mas, mesmo sem saber, já empunhava a bandeira da igualdade. Cresci sem distinguir brincadeiras de meninos ou meninas, até que o patriarcado sussurrou pela primeira vez: “Porque você é menina”. Eu tinha 12 anos e meus primos meninos iriam sair passear. Eu queria ir junto, mas não, eu era uma menina.
A frase que me negou a liberdade ressoou por anos até que compreendi seu peso. O mundo não foi feito para nós. Mas nós, mulheres, decidimos refazê-lo.
Em 2017, a dor encontrou voz. #MeToo foi mais do que um movimento; foi um grito coletivo. Mulheres arrancaram o véu da normalização e enxergaram o óbvio: não estávamos sozinhas. O assédio, a violência e o medo não eram apenas histórias isoladas – eram capítulos de uma narrativa imposta a todas nós.
Quantas vezes atravessei a rua para evitar olhares famintos? Quantas vezes suportei “elogios” indesejados em silêncio? Quantas vezes aceitei o desconforto como rotina? Até que o feminismo me ensinou a dar nome às minhas dores: assédio, violência, desigualdade. E ao dar nome, passei a combatê-las.
Antes, nos culpavam. O vestido curto, o sorriso fácil, a resposta atravessada – qualquer desculpa servia para justificar o injustificável, como se o instinto masculino fosse incontrolável. A “legítima defesa da honra” que absolvia assassinos de mulheres que mostravam também sentir desejo, só caiu em 2023, provando que a luta é recente e a estrada, longa.
Mas caminhamos. Votamos. Ocupamos cargos políticos. Trabalhamos sem precisar de permissão. Estudamos e brilhamos na ciência, na arte, na tecnologia. Escolhemos ser mães ou não e nos divorciarmos. Dizemos “não” e exigimos que seja ouvido, porque Não É Não.
Mesmo assim, nos chamam de exageradas. Dizem que “agora tudo é assédio”. No espaço público, recuaram, mas no privado, os feminicídios aumentaram. Somos protegidas pela lei, mas é a consciência que precisa ser modificada. Os homens temem perder o poder, resistem à mudança, sem perceber que ela os liberta também.
Apesar dos avanços, muitas mulheres ainda temem a palavra feminismo, influenciadas por mitos que deturpam seu significado. O feminismo não busca supremacia feminina, mas igualdade, questionando padrões tóxicos que afetam a todos. Ele defende a liberdade de escolha, sem imposições, e luta contra desigualdades estruturais, como a disparidade salarial e a violência de gênero.
São 8 anos desde que me reconheci feminista, e vi a mudança, mas também vi que ela não me alcança como antes. O assédio na rua diminuiu, não porque o mundo mudou, mas porque eu mudei. Não sou mais a jovem de pele firme e olhos ingênuos. Percebi, com um frio no peito, que o foco das violências migra. O patriarcado elege suas vítimas, e eu já passei da “idade ideal”.
Agora, a violência se refaz em outro formato. Se antes, os olhares invadiam meu corpo sem permissão, hoje sou ignorada. Se antes, minha juventude era vista como objeto de desejo, agora minha maturidade se tornou invisível. O etarismo me silencia de outra forma. Meu corpo não é mais vigiado, mas minha existência é apagada.
Para os homens, o tempo amadurece. Para as mulheres, ele as apaga. Enquanto eles ganham respeito com a idade, nós perdemos espaço. O feminismo me ensinou a lutar por voz, mas agora a luta é para que essa voz não se perca na poeira da invisibilidade.
A luta continua. Se não sou mais o alvo das violências explícitas, sigo enfrentando o apagamento, porque o mundo ainda não aprendeu a enxergar mulheres além da juventude. E essa… é mais uma batalha que precisamos vencer.
Karina Zeferino


