Assombro-me toda vez que vejo alguém recorrer ao bisturi para se tornar a versão filtrada de si mesmo. Não é de hoje, eu sei. Mas ainda me inquieta.
Vivemos na fronteira entre aceitar-se como se é e buscar mudanças para sentir-se melhor. E, em ambos os caminhos, as redes sociais moldam a forma como nos enxergamos.
De um lado, floresce o “body positive”, um sopro de resistência contra décadas de um padrão que idolatra o magro, o alto, o jovem, o loiro. Um convite ao amor-próprio, à aceitação sem condições.
Do outro, a distorção da realidade: filtros que afinam rostos, redesenham corpos, criam versões irreais de quem somos. Influenciadores compartilham cirurgias como quem troca de roupa, sem mencionar os riscos, as dores, as cicatrizes.
E como se não bastasse, a tela virou tribunal. A qualquer instante, uma avalanche de opiniões não solicitadas pode desabar sobre qualquer um. O anonimato encoraja o ódio, e a busca por curtidas transforma a aparência em moeda de valor. No reflexo distorcido da tela, ser admirado tornou-se mais importante do que ser verdadeiro.
Mas não é só o corpo que se edita. Editam-se também as emoções, os dias, as histórias.
Postam-se viagens paradisíacas, amores perfeitos, rotinas imaculadas.
O palco é brilhante, mas os bastidores, ninguém vê, ou mostra.
Outro dia, um vídeo me prendeu. Um pai tentava resgatar seu filho de dois anos preso no banheiro. A aflição era nítida, o desespero estampado nos gestos. Mas o que me perturbou foi outra coisa: de onde veio a calma para posicionar a câmera? Em que momento o impulso de registrar se sobrepôs ao instinto de agir?
Há uma ânsia crescente por compartilhar tudo, como se exibir finais felizes fosse a única maneira de lidar com os finais infelizes da vida real. Até a tristeza, quando publicada, vem editada com trilha sonora, legenda inspiradora e ângulo estratégico.
Mas a vida real não aceita retoques. Ela tem alegrias, sim, mas também dor. Tem sol, mas tem tempestades. Nem toda viagem é memorável, nem toda companhia é agradável. E quando o inesperado acontece, não há tempo para ajustar a câmera.
Fazer das redes sociais um espelho fiel da existência é caminhar rumo à frustração. Mas entendê-las como o que são — um recorte, um fragmento escolhido, um filtro sobre a realidade — é a chave para uma relação saudável com esse mundo digital.
Comparar-se ao palco do outro sem enxergar os próprios bastidores é um jogo cruel. Mas, se soubermos navegar com consciência, há muito a se aproveitar. Criatividade, informação, conexão, diversão, tudo isso está lá, basta olhar com discernimento.
Os filtros podem ser uma ferramenta, não uma máscara. E quando compreendemos que a vida, esta sim, não tem filtro algum, aprendemos a apreciá-la como ela é: imperfeita, mas genuína.
Karina Zeferino


