Frequentemente escuto de mulheres que acabaram de se tornar mães que, após gerarem seus filhos, além do amor, duas certezas se instalaram dentro delas:
a força para enfrentar a vida cresceu — e o maior medo passou a ser morrer antes de criar o filho.
A sociedade, então, se apressa em transformar esse sentimento em regra. Em uma verdade absoluta:
“Ter um filho é conhecer o maior amor do mundo.”
Mas e se esse amor não for uma necessidade universal?
E se a maternidade não for um destino inevitável?
O tão falado “instinto materno” é uma falácia.
A psicanalista Vera Iaconelli desmonta essa ideia, mostrando que ele não passa de uma construção histórica e cultural surgida entre os séculos XVII e XVIII.
Na tentativa de resolver problemas socioeconômicos, criou-se uma ideologia que fez da maternidade um dever, vinculando o cuidado dos filhos exclusivamente às mulheres — subalternizando-as tanto na esfera pública quanto na privada.
Por isso, quando uma mulher declara que não quer ser mãe, a sociedade reage com indignação — como se o corpo feminino fosse um objeto de procriação e sobrecarga.
Dizem que ela nunca conhecerá o verdadeiro amor. Que jamais será completa.
E, pior: acusam-na de egoísmo.
Mas quem, afinal, é o verdadeiro egoísta?
Ter um filho para preencher um vazio existencial ou uma carência afetiva.
Ter um filho para dar sentido à própria vida.
Ter um filho para ser continuidade de si mesmo.
Ter um filho para garantir companhia e cuidado na velhice.
Para herdar a empresa, seguir a profissão da família, realizar os sonhos que os pais não conseguiram alcançar.
E assim, crianças nascem carregando fardos que nunca pediram — e talvez nunca consigam carregar.
Desde cedo, são ensinadas a servir:
a beijar o tio que não querem nos encontros de família,
a sorrir para agradar,
a cuidar dos irmãos como babás não remuneradas.
Crescem sob o peso de expectativas que não são suas, moldadas para caberem dentro dos sonhos alheios.
Tornam-se extensão dos pais.
Terapeutas de dores nunca curadas.
Prisioneiras de ciclos que ninguém quis romper.
Será que esse amor incondicional tão exaltado não esconde, no fundo, vaidade e insegurança?
O filho não é uma promessa.
Não é um investimento.
Não é uma garantia de nada.
Filhos são indivíduos.
Com direito a serem. A escolherem. A existirem para além dos desejos que os antecederam.
E amar, de verdade, talvez seja apenas isso:
libertar.
P.S.: Libertar os filhos das expectativas.
E as mulheres da maternidade compulsória.
Karina Zeferino


