Penso em minha avó.
Cabelos branquíssimos, passos lentos, pele marcada de sol e olhos cercados por sulcos profundos. Partiu cedo demais, aos 61 anos, como aquela vovó que cuidava de todos — menos dela mesma.
Criada por ancestrais conservadores, pergunto-me: se estivesse aqui, como seria hoje, 25 anos depois de sua morte?
O que diria ao me ver casada com uma mulher?
O que sentiria ao perceber que todos os netos se divorciaram?
Como julgaria o fato de netas escolherem não ser mães?
Penso também na minha bisavó, a quem nunca conheci.
Ela faleceu quando minha mãe ainda me carregava no ventre.
Sei pouco sobre sua vida, mas o pouco que sei já é doloroso demais. Tão distante da realidade atual que muitas mulheres sequer imaginam que um dia as coisas foram assim.
Minha bisavó viveu num tempo em que mulheres não podiam votar.
Não podiam trabalhar sem permissão do marido.
Não podiam sequer sonhar em serem donas de si.
Eram prisioneiras de um tempo que as via apenas como esposas e mães.
Minha avó já teve um pouco mais de liberdade. Mas não o suficiente.
Divorciar-se ainda era escândalo.
Trabalhar fora, uma concessão.
Anticoncepcionais começavam a existir, mas nem todas podiam acessá-los, nem todas podiam decidir sobre o próprio corpo.
Minha mãe viu o mundo mudar.
As universidades se abriram.
O divórcio deixou de ser pecado e virou possibilidade.
Mulheres passaram a ter CPF, CNPJ, e voz.
Mas ainda havia julgamentos.
Ainda havia o peso da expectativa sobre seus ombros.
E então chego a mim.
Eu, que posso escolher não ser mãe sem ser apontada na rua.
Que posso amar uma mulher sem que isso me apague socialmente.
Que posso assinar contratos em meu nome, construir uma carreira, seguir meu próprio caminho.
Mas ainda há desafios.
Ainda andamos com medo à noite.
Ainda precisamos provar que somos mais do que um corpo, um ventre, um papel.
Olho para a geração seguinte.
A Geração Z, que nasceu dizendo “não”.
Que recusa o que chamam de normal.
Meninas que não pedem desculpas por existir.
Mulheres que falam alto, exigem respeito, e não aceitam menos do que a liberdade inteira.
E então volto meu olhar para trás.
Penso em minha bisavó, em minha avó, em minha mãe.
Penso em todas as mulheres que vieram antes de nós.
Em tudo o que conquistaram para que hoje eu pudesse escrever este texto com meu nome completo.
Cada passo dado.
Cada direito arrancado de uma sociedade que nos queria caladas.
Carregamos dentro de nós todas elas.
E seguimos.
Porque ainda há muito a conquistar.
Porque em muitos cantos do mundo, mulheres ainda não decidem sobre seus corpos, suas vidas, seus futuros.
Porque mesmo onde os direitos já chegaram, há quem queira nos empurrar de volta ao silêncio.
Seguimos.
Porque nossa liberdade ainda incomoda. Ainda desafia. Ainda precisa ser protegida.
Seguimos,
porque devemos isso às que vieram antes —
e às que virão depois.
Karina Zeferino


