Quando eu era criança, as questões que me tiravam o sono eram:
“De onde viemos?” ou “Para onde vamos?”
Passadas algumas décadas e muitos estudos, aprendi bastante coisa.
No entanto, quanto mais aprendo, mais dúvidas tenho.
A grande questão que me habita desde a pandemia é:
por que precisamos de situações extremas para refletir sobre como estamos vivendo?
Por que só valorizamos o que tínhamos depois que perdemos?
Por que precisamos ser parados — pela dor, pela ausência, pela crise — para reavaliar nossas escolhas, vínculos e prioridades?
Por quê?
A vida não nos dá garantias.
A única certeza é a de que vamos morrer.
E ainda assim, a morte segue sendo tabu —
um assunto que evitamos, uma realidade que não conseguimos encarar.
Por que é tão difícil viver o momento presente?
Por que nunca estamos contentes com a vida que temos?
E por que tantos apenas reclamam, mas não fazem nada para mudar?
Por que nos engessamos em verdades sociais e não olhamos para a verdade da nossa alma?
Por que nos moldamos para sermos o que os outros esperam, e passamos a vida longe de nossa essência — até sermos engolidos pelas dores que evitamos sentir?
E por que os poucos que têm coragem de assumir quem são, de se amar como são, acabam julgados pelos que não têm coragem de fazer o mesmo?
Parece estranho, mas o ser humano carrega um certo ganho em não mudar.
Mesmo quando a situação parece ruim, ela ainda é preferida à mudança.
Se permanecemos onde estamos, é porque o desconforto de sair ainda é maior que o de ficar.
Todos temos resistência à mudança.
Me incluo nas perguntas.
Já precisei de um chacoalhão da vida para perceber que algo precisava mudar.
Mas mudar dá trabalho.
Mudar dói.
Mudar exige dedicação — e o que o ser humano mais evita é o esforço.
No entanto, se cada um de nós soubesse o quanto é satisfatório assumir quem se é, ninguém mais adiaria.
As questões existenciais de infância perderam espaço para perguntas mais urgentes:
As que nos afastam da vida que poderíamos ter, das pessoas que poderíamos ser, dos trabalhos que poderíamos fazer, da qualidade de vida que poderíamos viver.
Descobrimos o mundo, mas não sabemos quem somos.
Temos liberdade de expressão, mas escondemos nossas verdades.
Gozamos da liberdade de ir e vir, mas não visitamos os próprios sentimentos.
Temos a chance de parar, pensar, reavaliar e recomeçar —
mas seguimos acelerando, anestesiando, nos embriagando de distrações.
E quando a morte chega, o arrependimento vem junto: não vivemos a vida que gostaríamos.
Hoje, o homem criou a inteligência artificial.
E ela tem o potencial de mudar o mundo como conhecemos.
Mas… o homem conhece a si mesmo?
Quantas pandemias mais serão necessárias para que a humanidade compreenda que a vida é feita do agora?
Que os resultados vêm das ações?
Que o futuro é construído no presente — e que quem não sabe o que busca, não vai encontrar?
Reclamar do marido, do pai, do chefe, do presidente ou do sistema não gera transformação.
A verdadeira mudança começa em nós.
Quando o ser humano vai perceber que as ferramentas para construir a vida que deseja estão dentro dele?
Que o amor que tanto procura no outro precisa nascer dentro de si?
Demorei para entender que não é clichê dizer:
se você não se amar, ninguém vai te amar.
Se você não se considera importante, não se respeita, não saberá impor respeito.
Não conseguirá estabelecer limites.
Nem viver bem.
Por muito tempo, busquei fora de mim as condições que achava serem necessárias para viver bem.
Aceitei menos do que merecia.
Sofri.
Muito.
Até entender que, se eu olhasse com atenção para dentro,
encontraria todas as respostas.
A chave que abre qualquer porta na vida é o amor.
E esse amor tem nome:
amor-próprio.
Você tem?
Karina Zeferino


